''Uma mentira muitas vezes repetida torna-se verdade'', disse o ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels. Mas no caso do falsificador de obras de arte holandês Han van Meegeren (1889-1947), a mentira se tornou realidade não por uma questão de repetição: desde a década de 1930 suas falsas pinturas adentraram museus e coleções na surdina e mesmo que o falsário tenha sido desmascarado logo após o fim da 2 Guerra, sua ousadia é um fantasma que ronda até hoje a produção do mestre Vermeer (1632-1675).
Não interessava a Han van Meegeren ser apenas um exímio copista de obras de um grande artista da história da arte. Em pleno século 20, a audácia do pintor foi forjar ser um Vermeer que nunca existiu: Van Meegeren criou pinturas que pertenceriam a uma fase em que o mestre de Delft teria feito quadros de temas religiosos, inspirado na obra de Caravaggio (1571-1610).
Contar a história deste mentiroso foi o desafio do jornalista e escritor irlandês Frank Wynne em ''Eu Fui Vermeer - A Lenda do Falsário que Enganou os Nazistas''. ''Estava interessado na questão da falsificação, na idéia de um artista decidir não tentar dizer algo por si mesmo, mas optar por usar a voz de outra pessoa'', diz Wynne.
Em 1945, após o fim da guerra, inspetores da Comissão de Arte Aliada chegaram a Van Meegeren para investigar se ele teria vendido, como marchand, um tesouro nacional, um Vermeer, para nazistas. O artista topou com um dilema: contaria que ele mesmo tinha sido o autor da tela ''Cristo com a Mulher Surpreendida em Adultério'', um falso Vermeer vendido ao marechal Hermann Goering, ''segundo homem'' do Reich?
Van Meegeren resolveu contar que era um falsário, entretanto que se gabava não de dominar a técnica do pintor do século 17 e sim de ter simulado, entre as décadas de 1930 e 40, uma série de obras criadas pelo mestre.
''Van Meegeren não foi herói. Quando tive contato pela primeira vez com sua história, em 1977, pensei nele como alguém um pouco leviano e esnobe. Mas quanto mais lia sobre ele, mais eu passava a gostar da história que ele representava. Tudo levava a crer que ele era um simpatizante do nazismo, misógino e racista, um ser humano horrível e, é claro, que odiava a arte moderna. Mas sua história nos diz muito sobre como nós olhamos as coisas. Se eu te disser que aquela é uma pintura de Van Gogh, você vai olhá-la de um jeito. Se eu te disser que Van Gogh a pintou logo antes de cometer suicídio, você a olhará de outra forma'', diz Wynne. ''As pessoas tendem a achar que crimes contra a arte não são graves porque ninguém vai ser machucado. Mas a verdade é que o dono da arte que está sendo falsificada é ferido sim, não importa se ele morreu há mais de 400 anos. Não importa quão boa seja a pintura falsa, é uma distorção do trabalho que eles fizeram'', afirma.
O falsário busca a imortalidade e Han van Meegeren, como escreve Wynne, ''aspirava a ser um gênio, não um artista''. Sabia também que o século 20 não estaria interessado no tipo de arte que fazia. ''Vi suas pinturas em Amsterdã. São feias e pálidas e acho hoje difícil pensar que uma pessoa pudesse olhá-las e acreditar que aquilo fosse pintado por Vermeer. Van Meegeren é um artista sentimental, suas pinturas não tinham nada a dizer.''
Mas o pintor, além de ser ''genuinamente'' apaixonado pela arte do passado - foi também um copista de obras de Frans Hals e Pieter de Hooch -, espertamente se valeu das poucas informações que existem sobre a vida de Vermeer.
Até hoje é controverso o número de Vermeers autênticos. O artista de personagens em cenas cotidianas, autor de obras-primas como ''A Leiteira'', ''Moça com Brinco de Pérolas'', ''A Rendeira'' e ''O Astrônomo'' teve contabilizados 66 quadros no primeiro catálogo de sua produção, realizado em 1866; 45 no de 1907; mais de 50 em 1940 (as falsificações de Van Meegeren entraram no pacote); e 35 no último levantamento, feito em 1948 por Vries, curador do Rijskmuseum.
Mas até hoje há obras questionadas e, entre elas, pinturas que podem ser de Van Meegeren, como a tela ''Jovem Sentada ao Virginal'', vendida em leilão da Sotheby's de 2004 para um magnata de Las Vegas.

SERVIÇO
- Eu fui Vermeer - A Lenda do Falsário que Enganou os Nazistas
Autor - Frank Wynne
Editora - Companhia das Letras
Tradutora - Hildegard Feist

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