A história de um homem, a história de um santo
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Talvez seja a história mais conhecida em todo o mundo. Uma história que começa com a inocência da pureza imaculada e termina com tortura e um violento assassinato.
Um carpinteiro chamado José e sua esposa Maria estavam viajando de Nazaré para Belém. Quando chegaram nas proximidades de Belém, Maria, que estava grávida, entrou em trabalho de parto. Sem terem onde se hospedar, abrigaram-se num curral. Ali nasceu, numa manjedoura, ao lado de ovelhas, burros e bois, sem parteira, o pequeno Jesus. Um homem que, após 33 anos de vida humilde e errante, morreria executado, pregado numa cruz por proclamar um novo reino. Um santo que influenciaria, de maneira decisiva, toda civilização ocidental. Até mesmo o tempo passaria a ser marcado antes e depois de seu nascimento (a.C. - d.C.).
Falar de Jesus não é tarefa fácil. Primeiro porque quase tudo já foi dito sobre ele, existem bibliotecas extensas. Segundo porque entramos no território da fé, onde a espiritualidade não se curva aos princípios da razão. Para uma melhor objetividade pode-se ver Jesus por dois prismas: Jesus espiritual e Jesus histórico. O primeiro comporta o coração de cada pessoa, o segundo as informações concretas e suas possíveis interpretações.
Na realidade, pouco sabemos sobre sua vida e obra. As únicas informações estão nos chamados Evangelhos. Dentre as dezenas de Evangelhos existentes, apenas quatro foram oficializados pela Igreja, os Evangelhos Segundo Mateus, Marcos, Lucas e João. Todos escritos, em grego, a partir de uma tradição oral quase cem anos após o nascimento de Jesus.
Jesus, cujo nove original era Iéshoua bSn Iosseph (ou Joshua Bar Yosef), não deixou uma única linha escrita sobre seus princípios. Falava aramaico e devia ter alguma noção de hebraico. Alguns pesquisadores afirmam que, apesar de analfabeto (como 95% da população da época), sabia de cor, em hebraico, passagens do Tora judaico. Neste quadro, onde as informações são restritas e tardias, construiu-se uma história imaginária que se encaixasse num contexto histórico inacessível. Difícil saber os limites entre história e mitologia.
Nada sabemos, por exemplo, da infância e adolescência de Jesus. Os Evangelhos narram seu nascimento e uma breve passagem, aos 12 anos de idade, em que aparece discutindo com sábios em uma sinagoga. A partir disso, os relatos pulam para um Jesus maduro, aos 30 anos de idade, pregando a boa nova. O que ele fez neste período, ninguém comenta.
Alguns pesquisadores afirmam que Jesus nasceu em Nazaré, cidade da Galiléia, não em Belém, cidade da Judéia. Alegam que Belém foi escolhida para fazer cumprir as profecias judaicas que diziam que o messias nasceria na mesma cidade de Davi, Belém. Seria também uma forma de legitimar sua linhagem. Na inscrição gravada em na cruz em que padeceu, os romanos gravaram a inscrição Iéshoua de Nazaré, Rei dos Iehoudõms (INRI) - Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus e não Iéshoua de Belém.
Até mesmo a data de seu nascimento é uma incógnita. Pesquisadores se dividem neste aspecto, mas todos são unânimes em afirmar que ele não nasceu no ano 1 a.C. Jesus teria nascido entre os anos de 6 a.C. e 4 a.C. Ou seja, teria nascido entre 6 e 4 anos antes do início da era que leva seu nome. Assim estaríamos, na realidade, vivendo no terceiro milênio, entre 2002 e 2004.
Jesus viveu numa conturbada época para ao judeus. Vivendo sob a invasão romana, com a sufocante opressão dos altos impostos, os movimentos messiânicos sedentos de uma salvação divina e as guerrilha armadas faziam parte da rotina. Jesus, como hebreu e judeu, viveu neste universo. O chamado Reino de Deus, proposto por ele, poderia significar a restauração da autonomia do povo hebreu. Os Evangelhos mostram que a população que o seguia não o fazia apenas por suas belas parábolas, mas por suas ações, pelos milagres que realizava.
O império romano não vacilou em aplicar-lhe o castigo reservado aos guerrilheiros judeus, a crucificação. Os relatos históricos não fazem menção a ser pregado na cruz, mas sim colocado ou amarrado. Técnica bem conhecida dos romanos, consistia em espancar sumariamente o prisioneiro e amarrá-lo na cruz. A morte era lenta e dolorosa, levava dias e dias.
A filosofia pregada por Jesus é utópica. A divisão dos bens materiais, dar tudo aos pobres, amar o próximo como a si mesmo, amar o inimigo e oferecer o outra face, são princípios radicais, muito difíceis de serem colocados em prática. Um projeto de mundo que, após dois mil anos, ainda não foi realizado. Nenhuma igreja que se ergueu em seu nome conseguiu tornar reais seus princípios. Jesus pregou uma utopia de belezas iluminadas e que a humanidade não conseguiu viver. Sua doutrina pode ser considerada o germe do socialismo utópico.
A linguagem utilizada por Jesus é a linguagem de um nabi (profeta), uma maneira subjetiva de falar, uma maneira repleta e informações paralelas onde nunca chama as coisas pelos seus próprios nomes. O resultado final é a multiplicação das possíveis interpretações. Por meio das parábolas (do grego, desvio do caminho), ele revela e ao mesmo tempo oculta sua mensagem. Sua vida e obra constituem-se em um signo de infinita leitura. Cada um lê aquilo que lhe interessa, ou aquilo que acalenta em seu coração.
Para se ter uma idéia, no texto copta Evangelho de Tomé, Jesus, indagado sobre quando os fiéis estarão preparados para entrar no reino por ele proposto, responde: Jesus lhes disse: Quando de dois fizerem um, e o de dentro ser como o de fora, e o de fora ser como o de dentro, e o de cima ser como o de baixo, e quando de homem e mulher fizerem um só, então o homem não será homem nem a mulher será mulher, quando puserem olhos em lugar de um olho, uma mão em lugar de uma mão, um pé em lugar de um pé, uma imagem em lugar de uma imagem, então vocês entrarão (no Reino).
É interessante saber que qualquer revolução na abordagem do Jesus-história altera o brilho do Jesus-espiritual. A mitologia será sempre maior que a história. Talvez porque, enquanto a história se nutre de fatos, acontecimentos, a mitologia se nutre de algo mais etéreo, da fé.
Nota - As informações do texto acima foram pesquisadas nas seguintes fontes: Jesus Histórico (Editora Imago, 1993), Jesus - Uma Biografia Revolucionária (Editora Imago, 1995), ambos de autoria do pesquisador norte-americano John Dominic Crossan; Jesus (in Vida, Editora Sulina, 1990), biografia escrita pelo poeta curitibano Paulo Leminski; Os quatro últimos volumes da coleção A Bíblia com tradução e comentários de André Chouraqui, Matyah - O Evangelho Segundo Mateus (Editora Imago, 1996), Marcos - O Evangelho Segundo Marcos (Editora Imago, 1996), Iohanân - O Evangelho Segundo João (Editora Imago, 1997) e Lucas - O Evangelho Segundo Lucas (Editora Imago, 1996); O Evangelho Segundo Jesus de Stephen Mitchell (Editora Imago, 1994); O Evangelho de Tomé (Editora Imago, 1993), evangelho apócrifo traduzido do copta por Marvin Meyer.





