A herança de Zé Pequeno
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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Felipe Branco Cruz e Marcela Rodrigues Silva <br> <br> Agência Estado 
São Paulo - Quando esteve no Brasil, em março do ano passado, o presidente dos EUA, Barack Obama, não incluiu por acaso uma visita ao bairro Cidade de Deus, no Rio. Há dez anos, quando o filme ''Cidade de Deus'', dirigido por Fernando Meirelles, foi lançado, essa comunidade pobre deixou de ser apenas um gueto comandado por bandidos para ser conhecida em todo o mundo.
Segundo Maria do Rosário Caetano, autora do livro ''Biografia Prematura - Fernando Meirelles'', o filme marca o fim da Retomada (período que denomina a produção nacional nos anos 90, iniciado com ''Carlota Joaquina'', de Carla Camurati, em 1995) e o começo de uma nova fase do cinema brasileiro. '''Tropa de Elite' deve muito a 'Cidade de Deus' por tratar a pobreza com uma pegada jovem'', avalia ela. ''Sua temática social moderna dialoga com o cinema de ação. Fez sucesso com o público e rachou a crítica ao meio.''
Em 2002, ''Cidade de Deus'' foi o título nacional que levou mais público às salas de cinema daquele ano, somando 3,3 milhões de espectadores, à frente de sucessos como ''Maria, Mãe do Filho de Deus'' (2,3 milhões) e ''Xuxa e os Duendes 2'' (2,3 milhões). Na esteira do reconhecimento, veio a consagração no exterior e, por tabela, quatro indicações ao Oscar, em 2004, por melhor direção, roteiro adaptado, fotografia e edição. Ao todo, recebeu 82 nomeações a prêmios e venceu 56 deles.
Assim, a passagem do presidente americano pela comunidade foi só uma das consequências atribuídas à fama conquistada pelo filme. No entanto, a mais significativa delas talvez tenha sido as mudanças que causou na vida dos jovens recrutados na comunidade e no Morro do Vidigal, por meio das ONGs Nós do Teatro e Nós do Cinema, para atuar na produção.
O ator Leandro Firmino da Hora, de 33 anos, morador de Cidade de Deus e célebre por interpretar Zé Pequeno, foi um deles. ''Mudou a minha vida. Eu trabalhava como boy. Nunca tive a pretensão de ser ator. Hoje, ser negro e morar na favela é legal. Na época, o preconceito era maior'', conta ele.
Firmino, aliás, foi convidado a conhecer pessoalmente Barack Obama, mas recusou. ''Muita gente queria conhecê-lo. Eu tinha outros compromissos'', diz. Para Luciano Vidigal, pesquisador de elenco do filme - responsável por descobrir Firmino e indicá-lo ao papel que o tornou famoso -, o ator não foi ao encontro do presidente porque não queria se envolver ''naquela politicagem toda''.
Há um mês, os cineastas Vidigal e Cavi Borges estão entrevistando os atores que participaram do filme. O objetivo é produzir o documentário ''Cidade de Deus - 10 Anos Depois'', que deve ser lançado este ano, contando justamente como ''Cidade de Deus'' mudou a vida desses atores. A dupla, que trabalhou com Fernando Meirelles na época, explica que o objetivo era buscar atores da comunidade para imprimir ao longa a sensação real do que é viver à margem da sociedade.
Segundo eles, o filme só não conseguiu mudar foi o preconceito contra atores negros. ''Todos os entrevistados reclamaram da dificuldade em conseguir bons papéis. A maioria que aparece é para fazer traficante, assassino, empregada doméstica, motorista. Poucos são protagonistas'', diz Vidigal. ''Tem papel até para homem azul, em 'Avatar', mas não para o negro'', ironiza Maria do Rosário.
O produtor veterano Luiz Carlos Barreto, o Barretão, lembra que outros títulos também contribuíram para o prestígio internacional do cinema brasileiro, como ''Central do Brasil'' (1998), de Walter Salles, indicado a dois Oscar, inclusive de melhor atriz para Fernanda Montenegro. Além de ''O Que é Isso, Companheiro?'' (1997) e ''O Quatrilho'' (1995), ambos indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro - e produzidos por Barretão. ''O cinema é um instrumento para moldar a imagem do país no exterior'', diz.


