A gula é um prato que se come quente
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 14 de dezembro de 1998
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
Comer talvez seja o esporte mais praticado no mundo. Um esporte de elite, mas que possui adeptos em quase todas as classes sociais. Chegou até mesmo à categoria de pecado capital, sob a forma de gula. Seu status é tamanho que comer em demasia tornou-se pecado, passar fome não.
Em seu novo livro, O Clube dos Anjos, o escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo coloca algumas pitadas e humor (e sangue) neste esporte cultuado em cada almoço. Lançado pela Editora Objetiva a obra integra a coleção Plenos Pecados, coleção dedicada aos sete pecados capitais.
O romance conta a história de uma série de assassinatos que abate os membros de uma confraria regida pelo paladar. Um confraria que nasce deliciando-se com ovo frito e se extingue deleitando-se com canard à lorange. O Clube do Picadinho, uma espécie de clube do bolinha onde mulher não entra, compreende 10 amigos amantes do paladar e da barriga cheia. Uma vez por mês se reúnem para fazer o que mais gostam, comer e beber. A tradição se mantém durante anos e ganha maior vitalidade com o aparecimento de um cozinheiro chama Lucídio.
Mestre exemplar da arte culinária, Lucídio passa a cozinhar para as reuniões da confraria. Mas um estranho fato começa acontecer, após cada refeição preparada pelo cozinheiro, um membro do grupo morre. Todos têm consciência que Lucídio é o culpado, colocando algum veneno nos pratos que prepara. O medo da morte aumenta obsessivamente o apetite do grupo. Numa roleta-russa os dez membros da confraria vão tombando um por um até que reste apenas o último, o narrador encarregado de contar toda a história.
Em O Clube dos Anjos, Luis Fernando Verissimo realiza uma espécie de romance policial às avessas. Sugerindo que a melhor maneira de ler um romance policial é de trás para frente, logo na primeira página do livro o narrador aponta o assassino da história: Eu e o Lucídio somos os únicos sobreviventes desta história, e se eu não o inventei, e como são poucas as probabilidades de ele ter me inventado, o claro culpado é ele. Dirigindo-se ao leitor, o narrador acrescenta: Todos nós matamos em pensamento mas só o autor, esse monstro, põe seus crimes no papel, e os publica. Se não matei meus nove confrades e irmãos em obsessão, sou culpado da ficção de tê-los matado. Preciso convencer você que não inventei o Lucídio para provar que sou inocente desses terríveis crimes. E preciso convencê-lo que a história é verdadeira para provar que sou inocente na ficção.
Na realidade O Clube dos Anjos é um romance sobre a obsessão, utilizando a gula como instrumento. Partindo da idéia de que todo desejo é um desejo de morte, Luis Fernando Verissimo sugere que toda obsessão caminha para a morte, de uma forma ou de outra.
O Clube dos Anjos - de Luis Fernando Verissimo, Editora Objetiva, 132 páginas, R$ 16,80.


