A guitarra mágica de Ali Farka Touré
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 02 de abril de 1998
Luiz Claudio Oliveira 
DivulgaçãoAli Farka TouréO negro americano inventou o blues para aplacar a angústia de sua alma explorada e saudosa. Mas esta angústia não veio da África, veio, talvez, da ausência da África, como mostra Ali Farka Touré, guitarrista do Mali, que hoje é um dos convidados de Jorge Benjor.
Apesar de ter dividido o palco com grandes nomes do blues americano, de sempre prestar reverência a John Lee Hooker - apesar de ter conhecido o som do americano somente com 30 anos de idade - e de ser chamado de o bluesman da África, Touré recusa o rótulo. Para ele, seu som tem mais a ver com as origens do vilarejo de Kanau, onde ele nasceu, em 1939.
Foi lá que passou bons anos ouvindo o som encantador da njarka, um violino de uma só corda, instrumento que o incentivou a seguir a carreira musical, embora seu pai fosse contra esta escolha. Foi tocando este pequeno violino que ele teve seu primeiro encontro com espíritos, o que lhe valeu o título de enfant de la riviSre, que significa aquele que tem o dom de se comunicar com os espíritos.
Ali Farka Touré foi autodidata no aprendizado da guitarra, que só veio a conhecer depois de ter tocado os instrumentos tradicionais de sua região, como a flauta, o ngoni, instrumento de quatro cordas, e a njarka.
A guitarra é como se fosse um barco que ele percorre do Niger ao Mississippi, mas sem carregar a saudade da África, tão característica do blues de raiz - nada comparável ao blues atual. O seu som também é de raiz, mas fez o caminho inverso daquele que chegou aos campos de algodão da América. Enquanto no Mississippi os negros trouxeram seu passado para a música americana, Touré traz um símbolo da música americana, a guitarra, para juntá-la à tradição de Mali.
Ninguém sabe o que pode acontecer hoje no palco do Guairão. Jorge Benjor fez uma música em homenagem a Ali Farka Touré, enquanto este promete deixar tudo em família pois, afinal, gosta de família grande. Não é à toa que tem duas mulheres e 11 filhos, que reúne com outros agregados em uma fazenda de 350 hectares na região de Tumbuctu.


