A guerreira na era digital
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de janeiro de 1998
Antônio Mariano Júnior Londrina 
ReproduçãoClara Nunes: seus discos são um legado de primeira grandeza à música popular brasileiraTem que ser muito fã para adquirir o pacote todo. E mesmo quem não é tão fã assim poderá ficar tentado já que a maioria dos discos contém sambas antológicos que marcaram a vida de muita gente, principalmente na década de 70. A decisão é difícil. Por um lado é preciso ter bolso profundo, por outro resistir à tentação é quase difícil porque é simplesmente agradável rever a obra completa de uma das cantoras mais populares que o Brasil conheceu: Clara Nunes. O você decide vem por parte da gravadora Emi que está relançando em CD todos os discos da mineira mais baiana que o mundo fonográfico brasileiro conheceu. No total, 16 títulos.
Reprodução
Entre os discos de Clara Nunes há uma galeria de imperdíveis: Claridade (75) recorde de vendagem; Guerreira (78); Clara (81) e Nação (82), seu último disco
Os discos foram remasterizados nos estúdios de Abbey Road, em Londres, e trazem uma qualidade sonora espetacular. Apenas um - Brasileiro Profissão Esperança, gravado ao vivo - passou pelo processo de remasterização no Brasil. Alguns discos vêm com faixa-bônus, a maioria canções lançadas em compactos simples ou duplos selecionadas por Paulo Cesar Pinheiro, viúvo da cantora e idealizador do projeto para CD.
Pois bem, vamos aos fatos. Ou, aos discos. O primeiro, gravado em 66, é um primor...de pieguices. A começar pelo título - A Voz Adorável de Clara Nunes. A capa, de gosto duvidoso, traz a cantora vestida de rosa, com um fundo azul, com um penteado de naná. O repertório traz canções adocicadas de amor e desamor - algumas breguinhas, . O bolero come em dó maior. O disco passou despercebido. Vendeu quase nada.
A indefinição de estilos - derrapagens aqui e alguns acertos ali - iria prosseguir em dois outros discos gravados no final da década de 60. O segundo, de 68, traz uma Clara um pouco mais preocupada com o repertório - há a gravação, por exemplo, de Sabiá (Tom Jobim-Chico Buarque) e da belíssima Pra Esquecer (Noel Rosa). Há um sambinha aqui, outro acolá carregado de metais e corinhos.
Esse disco teve até uma boa aceitação por causa do sucesso Você passa e Eu Acho Graça (Carlos Imperial - Ataulfo Alves), que dá nome ao trabalho. No trabalho seguinte,A Beleza que Canta, de 69, Clara se mostra moderninha na capa - com um jeitão à la Wanderléa - mas não traz muitas coisas interessantes não. O destaque fica por conta da regravação de Meus Tempos de Criança (Ataulfo Alves).
Vai meu bloco, tristeza... - Eis que chega a década de 70. Inicia-se o reinado de Clara Nunes que se revela uma sambista de primeira mão. O motivo talvez seja a repercussão da faixa Ê Baiana (Fabrício da Silva - Baianinho - Ênio Santos Ribeiro - Miguel Pancracio) no disco gravado em 71. Nesse, a cantora começa também a explorar - e bem - ritmos nordestinos e também o samba-afro que iria ser uma constante em todos os trabalhos.
Achado o rumo, Clara prosseguia firme e forte na cadência do samba. Um dos discos mais bonitos - e um dos melhores - é o de 73 em que seu rosto é desenhado na capa. Logo no início, um de seus grandes sucessos - Tristeza Pé no Chão (Armando Fernandes). O repertório só traz bambas como Nelson Cavaquinho, Chico Buarque, Dorival Caymmi, Jards Macalé, Vinícius de Moraes. Clara resgata com uma categoria incrível o compositor Synval Silva com Arlequim de Bronze. Lindo. De se escutar milhões de vezes.
Nessa altura do campeonato, Clara já tocava exaustivamente nas rádios. Shows e mais shows nos quatro costados. Prestígio. E para ajudar, surge Claridade (75), que vendeu perto de 600 mil cópias graças a O Mar Serenou (Candeia). Clara tornava-se popularérrima e, consequentemente, seus discos eram aguardados com certa expectativa e cercados de cuidados de divulgação que a gravadora dispensava a poucos.
Encerrando a década de 70, Clara deixou quatro trabalhos que valem a pena ter em casa. O sensacional Canto das Três Raças (76), As Forças da Natureza (de 77, que traz a belíssima Coração Leviano, de Paulinho da Viola; e resgata Clementina de Jesus em PCJ, de Candeia. É aquela do não vadeia Clementina), Guerreira (78) e Clara Esperança (79).
Dorival Caymmi falou pra OxumIgualmente interessante são os três últimos discos gravados por Clara Nunes, no início da década de 80. Em especial Nação, de 82, que tem megasucesso Ijexá (Edil Pacheco) e a belíssima faixa-título. Clara estava no auge quando morreu. Era uma unanimidade tanto de crítica quanto de público. O motivo é simples: soube mesclar músicas populares - dessas para se tocar no rádio e vender discos - com canções de compositores sofisticadíssimos.
Parte do prestígio da cantora se deveu a Paulo César Pinheiro, letrista, poeta e também marido que, a partir de Canto das Três Raças, passou a assinar a direção artística de seus discos. E mesmo que os primeiros discos de Clara sejam um tanto quanto dispensáveis - isso para os não tão fãs - a gravadora Emi foi simplesmente feliz em relançar o legado musical de uma das maiores entidades da MPB. Uma cantora que acima de tudo fez escolas e assumiu-se como defensora voraz do samba afro - ou samba de candomblé - e que ainda permanece na memória de muitos fãs. Tudo sob as bênçãos de Ogum e Iansã. Ogunhê!! Eparrei!!


