Existe uma certa unanimidade acerca de duas figuras fundamentais para a arte fotográfica em preto e branco do século 20: o húngaro Robert Capa e o francês Henri Cartier-Bresson. Isso porque, cada um a seu modo, mostraram em suas imagens o mundo por um ângulo nunca visto - ou simplesmente desconhecido pela maioria das pessoas. Algo semelhante ao que o brasileiro Sebastião Salgado realiza atualmente.
Embora tenha morrido em 1954, Robert Capa foi o grande responsável pelo conceito de fotojornalismo utilizado hoje por jornais e revistas do mundo inteiro. Sua especialidade foi retratar a guerra através de uma ótica humanista e, acima de tudo, real. Sua sede em conseguir a melhor imagem, a mais próximo possível dos acontecimentos, transformou-o num mestre. E, infelizmente, esse foi o motivo de sua morte.
A Cosac & Naify Edições acaba de lançar ‘‘Robert Capa - Fotografias’’, livro que reúne as imagens mais significativas do fotógrafo que percorreu o mundo registrando a irracional violência das guerras. Trata-se do primeiro livro com a obra de Capa publicado no Brasil. O volume foi organizado por Richard Whelan (biógrafo do artista) Cornell Capa (irmão de Robert). A obra é fruto de uma pesquisa realizada entre os 72 mil negativos do arquivo do fotógrafo que deu origem um trabalho reunindo 937 imagens, entre as mais conhecidas e inéditas. ‘‘Robert Capa - Fotografias’’ é uma compilação desse trabalho que teve circulação estritamente restrita. -
Junto com Henri Cartier-Bresson, Capa foi o fundador da lendária agência fotográfica Magnun, da qual foi presidente durante vários anos. Bresson assina o micro prefácio do livro. Resume a obra do amigo em poucas palavras: ‘‘Para mim, Capa vestia os trajes de luz de um grande toureiro, mas nunca para matar; como grande guerreiro, ele combatia generosamente por si próprio e pelos outros em meio a um furacão. Quis a fatalidade que fosse derrotado no auge de sua glória.’’
Diz a lenda que Capa foi responsável por impulsonar a carreira de Cartier-Bresson na década de 30 - que trabalhava com a experimentação mas sonhava em ter suas fotos publicadas em jornais e revistas. O conselho de Capa foi curto e direto: ‘‘Se você se considerar um artista, não vai conseguir nenhum trabalho. Considere-se um fotojornalista e então faça aquilo que quiser’’.
Endre Friedman (verdadeiro nome de Robert Capa) nasceu em Budapeste em 1913. Filho de pais judeus, precisou deixar a Hungria devido a suas atividades estudantis de esquerda. Instalou-se em Berlim, onde começou a trabalhar como office-boy numa agência de fotografia. Demonstrando talento para a fotografia recebeu sua primeira missão aos 19 anos de idade: registrar uma palestra de Leon Trotsky para estudantes na cidade de Copenhague.
Com a ascensão de Adolf Hitler, fugiu da Alemanha para a França. Em Paris abraçou a carreira de fotojornalista. Com a ajuda da namorada Gerda Taro, inventou um personagem para melhor vender suas fotografias. Criou um sujeito norte-americano chamado Robert Capa, fotógrafo bem sucedido que levava uma vida de glamour mundo afora.
Editores de várias publicações, empolgados com a qualidade do trabalho, caíram no golpe. A façanha durou pouco tempo. Logo a estratégia foi descoberta e Endre Friedman resolveu mudar definitivamente seu nome para Robert Capa.
Em 1936 foi para a Espanha e realizou seu primeiro grande trabalho. Ao lado de Gerda Taro cobriu a Guerra Civil Espanhola. Estando sempre na linha de frente das batalhas, registrou uma imagem que o tornaria famoso no mundo inteiro. Capa conseguiu fotografar um combatente no momento exato em que recebia um tiro fatal. A imagem foi publicada em dezenas de jornais e revistas de vários países. Pela primeira vez os leitores tinham acesso à real face da guerra, uma imagem que entrou para a história da fotografia.
Arriscando a própria vida por um fotograma, tornou-se um profissional respeitado. Sua namorada porém não teve a mesma sorte. Trabalhando como fotógrafa no front, teve um fim trágico. Gerda Taro fazia a cobertura de uma batalha nas proximidades de Madri e, durante uma retirada inesperada, foi esmagada por um tanque do governo espanhol. De casamento marcado, Capa arrastou essa perda pelo resto de sua vida. Isso não o impediu de continuar fotografando as principais guerras do século 20.
Além da Guerra Civil Espanhola (1936 - 1939), registrou, entre outros conflitos, o invasão japonesa da China (1938), a Segunda Guerra Mundial (1941 - 1945), a Guerra de Independência de Israel (1948) e a Guerra da Indochina (1954). O impacto de suas imagens estava vinculado à proximidade da cena captada. Antes de Capa, as fotografias de guerra eram feitas com câmeras grandes e pesadas que faziam uso de chapas de vidro. Exigiam que o fotógrafo ficasse longe dos acontecimentos sem mobilidade. Ele passou a utilizar uma pequena e discreta Leica 35 milímetros o oferecia mobilidade total e não assustava as pessoas fotografadas. Seu lema máximo era: ‘‘Se as fotografias não estão boas o bastante, é porque você não está próximo o suficiente.’’
Essa fúria em estar o mais perto possível do fato o levou a desembarcar com as tropas norte-americanas na costa francesa da Normandia no dia que ficou conhecido como Dia D. Foi o único fotógrafo que cobriu o episódio. Sob uma chuva de balas, teve a ousadia de ficar de costas para o inimigo para realizar as fotos.
O desejo de estar o mais próximo possível das ações, levou Capa a um fim trágico. Ele estava trabalhando na cobertura da guerra dos vietnamitas contra o colonialismo francês na Indochina em 1954 - conflito que anos mais tarde daria origem à guerra norte-americana no Vietnã. Acompanhando um batalhão de soldados franceses na missão de destruir dois focos de resistência, ele pisou numa mina e acabou morrendo. Sua última foto, registrada pouco antes de pisar na mina, completou seu acervo de 72 mil negativos.
Narrada dessa maneira, a vida e obra de Robert Capa pode ser resumida numa bandeira pelo fim da violência. Mas a realidade é que o fotógrafo não percorreu apenas a face mais dolorida dos conflitos humanos. Entre uma guerra e outra levou um vida iluminada pelo glamour. Em seu quartel-general, Paris, passava o dia assistindo a corridas de cavalos e varava as noites em boates nos braços de mulheres estonteantes. Entre suas inúmeras namoradas estava a atriz Ingrid Bergman. Sua roda de amigos era formada por grandes personalidades artísticas como Ernest Hemingway, John Steinbeck, Pablo Picasso, Henri Matisse, Truman Capote e John Huston. Esse universo também foi retratado em suas fotografias e a edição de ‘‘Robert Capa - Fotografias’’ traz várias imagens que ilustram essa faceta de sua obra.
‘‘Robert Capa - Fotografias’’ - De Robert Capa, Cosac & Naify Edições (telefone: (11) 255-8808 / e-mail: [email protected]), introdução de Richard Whelan, prefácio de Henri Cartier-Bresson, reminiscência de Cornell Capa, 192 páginas, R$ 78,00.

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