Curitiba Uma história real e contumaz sobre o destino de sete mulheres condenadas a passar dez anos de suas vidas numa estância, enquanto a maior guerra civil do continente ceifava a vida de alguns de seus homens é a trama do livro ''A Casa das Sete Mulheres'', da gaúcha Letícia Wierzchowski. Ao debulhar as palavras ferozes da escritora o leitor irá se deparar com uma trama difícil de ser tecida por uma mente tão jovem a escritora tem apenas 30 anos e tão distante da época em que a Guerra dos Farrapos aconteceu.
Era 1835 quando tudo começou. Já no réveillon daquele ano, uma das sobrinhas daquele que iria se tornar o líder da revolução, Bento Gonçalves da Silva, e que também viria a se tornar a eterna paixão de Giuseppe Garibaldi, chamada Manuela começava a escrever seus diários, o tesouro que deu origem à obra.
Dotada de uma incrível sensibilidade feminina, Manuela pressentiu que de alguma forma aquele ano não seria como os outros. Os jantares felizes, os bailes e as promessas de casamento a primos e amigos da família, dariam lugar a longos anos de espera, sofrimento, perdas e paixões arrebatadoras. Anos em que as irmãs de Bento Gonçalves da Silva, Ana, Antônia e Maria Manuela junto com sua mulher Caetana, sua filha Perpétua e suas sobrinhas Manuela e Rosário se isolariam do mundo e mergulhariam num universo de sensações impossível de ser interrompido.
Bento Gonçalves da Silva resolveu dar início àquela batalha sangrenta contra os imperiais para lutar pela república e por ideais que ele e mais uma legião de simpatizantes achavam necessários para o bem do Rio Grande do Sul como a abolição da escravatura. Como forma de proteger as principais mulheres de sua vida as levou para a Estância da Barra (casa de sua irmã Ana). Lá ficariam seguras. Ficariam bem e a salvo dos horrores das batalhas. O que Bento não pode prever era a extensão de tempo que aquele confronto iria tomar.
Juntas naquela casa, as sete mulheres viveram, na realidade que ganhou grande adaptação da escritora Letícia, uma história de amadurecimento e de lutas contra a solidão enlouquecedora de invernos, verões, outonos e primaveras no abandono do pampa gaúcho. Mulheres que foram criadas como princesas permaneceram lá, protegidas de uma guerra que, a uma certa altura, nem elas entendiam mais. Algumas enlouqueceram. Como foi o caso de Rosário. Ao apaixonar-se por um fantasma, a sobrinha de Bento entrou num túnel sem volta. Sua vida de moça da cidade, que adorava bailes e vestidos, tomou um rumo que nem o amor e a dedicação da família poderam alterar. Um amor irreal foi a forma que Rosário encontrou para suprir o vácuo ensurdecedor que aquele tempo provocou em sua vida.
A realidade deixou de ser palpável para elas. E sem outro caminho a seguir as sete mulheres entregam-se ao incrível e imprevisível. Nas 511 páginas da obra, o leitor poderá encontrar como a guerra girou em torno daquela casa. Amores difíceis como o de Manuela por Giuseppe Garibaldi. Filha da irmã do general da revolução, a jovem era prometida para o primo Joaquim. Assim foi acertado entre a família e assim foi proibido um amor que empurrou Garibaldi para os braços de Anita. A heroína entra na trama como uma mulher casada que abandona tudo para lutar ao lado do navegador italiano. Juntos escreveram uma história de infelicidade para o amor sem fim de Manuela.
Ao ler trechos da obra quando a tia Antônia aconselha Manuela a não odiar Garibaldi por ter casado com a guerreira Anita, o leitor poderá perceber a sabedoria das linhas:''Não era bom que uma mulher odiasse demais um homem... E o ódio de uma mulher pode ser mais duradouro do que uma guerra...''. Frases como essa servem de base para quem busca na leitura uma chance de enriquecimento.
A rivalidade entre Bento Gonçalves da Silva e Bento Manuel que, de aliados passaram a inimigos com o decorrer e entrave da revolução, também foi descrita pela escritora. Tudo com riqueza de detalhes que até quem conhece bem a história da família se impressiona. ''O que me surpreende é que a autora tão jovem e tão distante do 'universo' em que viveu Bento Gonçalves, o descreva com tamanha veracidade. Ela não escreve, ela fala de todos os acontecimentos da época, fala do terrível clima gaúcho, principalmente na região do campo, com suas intermináveis e seu triste céu cinzento'', diz Maria Jacinta Gonçalves, trineta do general Bento Gonçalves da Silva.
Quem quiser saber um pouco da história que o Rio Grande do Sul viveu sob uma ótica feminina e sensível não pode deixar de ler ''A Casa das Sete Mulheres''. Um exemplo de força. Uma história de mulheres que deram a melhor parte de suas vidas pela revolução. Uma história de ensinamentos das mulheres do campo. De sabedoria.
''A Casa das Sete Mulheres'' representa bem a sensibilidade e força que Bento Gonçalves da Silva tinha para sua família. Homem amado por todas e respeitado pelos seus ideais até por seus inimigos, Gonçalves da Silva acabou sendo injustiçado pela crueldade da ditadura imperial. Na obra de Letícia um pouco de sua hombridade e de seus reais objetivos de luta são preservados, praticamente intocados. Um livro que deve entrar para a história da literatura brasileira pela perfeita transição entre ficção e realidade que Letícia Wierzchowski conseguiu transmitir.

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