A guerra entra em cena
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quarta-feira, 15 de maio de 2002
Francelino França Reportagem Local 
A escritora sérvia Biljana Srbljanovic, de 33 anos, foi vítima dos conflitos na Iuguslávia, quando o ditador Slobodan Milosevic deixou nesse país da península balcânica um rastro de destruição. Antes dos bombardeios da Otan em 1999, ela escreveu um texto teatral contundente. A peça Histórias da Família, em cartaz hoje e amanhã na programação do Festival Internacional de Londrina (Filo), retrata a vida de uma família que vive os efeitos da guerra. A história é apresentada sob o ponto de vista das crianças. Numa praça de Belgrado, as crianças se encontram todas as tardes e brincam com os códigos da guerra. Para tornar a situação patética, elas imitam os pais.
A montagem do diretor chileno Guillermo Calderón traz adultos interpretando crianças, sem que tenha que recorrer a estereótipos. A peça estreou em Santiago em junho de 2001 e fez turnê pela Europa. Essa é a primeira apresentação de Histórias de Guerra na América Latina. Segundo a atriz Heidrun Breier, não se trata de uma obra política. As crianças retratadas na peça poderiam estar em qualquer lugar do mundo. No Chile, as situações remeteram aos conflitos da ditadura militar do general Pinochet.
Numa sucessão de 12 quadros, a peça discute a tortura psicológica, o uso de drogas, o conflito político e o racismo. Depois de cada cena, um dos garotos mata simbolicamente o pai, numa possível alusão ao desejo de matar Milosevic. A violência cotidiana sobre um grupo de crianças tem uma conotação mais intensa e devastadora. Mas a autora não apresenta soluções para os conflitos.
O diretor Guillermo Calderón não recorre a tanques e soldados para abordar essa realidade para tentar responder qual a lógica da guerra. Uma das características da montagem chilena é que não se sabe quando as personagens estão imitando os pais ou são os pais quem estão falando. Esse jogo o espectador vai decifrar.
A implosão nas relações familiares entre pais e filhos diante do processo de desintegração de um país é que norteia a dramaturgia de Biljana Srbljanovic, considerada uma ativista política de representatividade internacional. A autora também publicou Trilogia de Belgrado, drama sobre exilados sérvios em Praga, Sydney e Los Angeles.
Serviço: Histórias de Guerra, de Biljana Srbljanovic, direção de Guillermo Calderón. Elenco, Daniel Alcaino, Heidrun Breier, Daniel Muíoz, Carola Gimeno.


