A guerra de Canudos em quadrinhos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de outubro de 2009
Claudio Yuge<br>Equipe da Folha 
A popularidade dos super-heróis em mídias de maior alcance tem chamado a atenção dos educadores, editoras e do próprio governo brasileiro para algo que os fãs da nona arte estão carecas de saber: os quadrinhos têm alto potencial pedagógico. Isso alavancou o número de adaptações literárias para ''gibis'', o que aqueceu o mercado neste sentido. Um dos resultados desse crescente interesse é ''A Revolta de Canudos'', de André Diniz e José Aguiar, que acaba de ser lançado pela Escala Educacional.
Em ''A Revolta de Canudos'', Diniz descarta a ''história oficial'' já bastante explorada em livros anteriores e parte para referências mais precisas, a partir de pesquisa. Essa caracterização deu ao curitibano José Aguiar a inspiração para dar sua contribuição gráfica a um dos capítulos mais importantes do Brasil.
O texto não se aprofunda em personagens e é bastante simples, o suficiente para estudantes entenderem o processo. Os desenhos de Aguiar são, como sempre, muito consistentes, não importa qual estilo o autor decida usar. O artista usa narrativa esperta, com ângulos e ritmo não-convencionais, junto do lápis inacabado para dar um ar mais sujo, tosco, de acordo com o clima do sertão e vai de encontro com a atmosfera da história.
A publicação cumpre bem sua função: conta a história de forma fácil de assimilar. No entanto, a proposta do selo Escala Educacional deixa um ponto de interrogação sobre arte e educação. A intenção dos autores foi a de fazer uma mistura perfeita de ambos, no entanto, é difícil encontrar esse meio-termo em um tratamento editorial confuso, tanto na confecção quanto na distribuição e divulgação.
Apesar da boa intenção, fica nesta bela história em quadrinhos um alerta sobre a necessidade de uma definição melhor a respeito do assunto, tanto para os governantes, quanto para as editoras e educadores.
Gente Feia na T.V. - À primeira vista, você poderia confundir os desenhos dele com os de Peter Bagge, famoso por ''Ódio''. Em uma segunda olhada, poderia dizer que suas grandes influências são Robert Crumb e os Freak Brothers de Gilbert Shelton. No final das contas, o carioca Chico Félix, radicado em Curitiba já há muitos anos, tem um pouco disso tudo: carrega aquele inquieto ar punk inconsequente vindo do cenário underground, cheio de críticas às trivialidades e amenidades da chamada camada intelectual brasileira.
Aos 30 anos, Félix, que ilustra desde pequeno e ao longo desse tempo sempre esteve ligado ao cenário underground musical - fazendo capas de discos e contribuindo para fanzines -, decidiu lançar de forma independente 500 exemplares da revista ''Gente Feia na T.V.'', um apanhado de curtas histórias, todas recheadas de críticas sociais.
''A ideia não foi fazer um quadrinho underground mas a estética acabou saindo assim'', explica. Mesmo não planejando exatamente dessa forma, Félix brinca com a ironia e às vezes sugere aquele riso nervoso, que leva à reflexão diante do humor. Os desenhos são bem resolvidos e seguem na linha de arte-final tosca de Marcatti, com aquela temática urbana de Angeli e outros da época da ''Chiclete com Banana''.
Colaborador da revista ''Soma'', Félix vem chamando a atenção com boas sacadas, como ''5 Coisas burras que todo mundo acha inteligente'', e sobra para o Jô Soares, para Lobão e Fernanda Young, Arnaldo Jabor e até para o filme ''Alta Fidelidade''. Ideal pra quem gosta de rir e pensar ao mesmo tempo.
Serviço
- A Revolta de Canudos - tem 40 páginas coloridas no formato 20 x 18 cm, a R$ 22,90. Já Gente Feia na T.V. tem 28 páginas, com capa colorida e miolo preto-e-branco, no formato 25 x 17 cm, a R$ 10, pelo correio ([email protected] e [email protected]).


