A guerra como droga
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de setembro de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Veneza, especial para a Folha2 
Não chega a ser um grande filme, mas pelo menos é uma forte e controvertida reflexão sobre a guerra, qualquer guerra (embora a ação se localize no Iraque). A exemplo do ano passado, quando ''No Vale das Sombras'' e ''Redacted'', praticamente ignorados pelo público dos EUA, trouxeram a tragédia da guerra para a competição, ''The Hurt Locker'' injeta agora necessário coquetel de adrenalina e testosterona a um semi-esquálido fim de festival.
Hoje é dia dos dois últimos concorrentes aos Leões, a esta altura estirados ao sol inclemente de fim de verão veneziano em merecida e mansa sonolência, anestesiados pelo marasmo de uma seleção de reduzido interesse.
Aos 57 anos, mas com aparência de quarentona, a diretora Kathryn Bigelow é caso singular no cinema produzido nos EUA. Com uma filmografia reduzida - este em Veneza é o sétimo em 26 anos de carreira -, ela sempre afrontou temáticas masculinas. ''The Hurt Locker'', concorrendo aqui, não é exceção. Ela é uma mulher inquieta, de quem já se escreveu: ''bela como uma atriz, alta como um ator''.
Esta inquietação escorre nervosamente pelos 130 minutos de seu filme que, apesar da ação sempre presente, consegue provocar uma análise fértil sobre o nonsense que preside qualquer conflito armado e sobre o conceito de heroísmo. O roteiro, escrito pelo jornalista e correspondente de guerra Marc Boan (autor da reportagem em que Paul Haggis se baseou para realizar ''No Vale das Sombras''), segue o dia a dia de uma equipe especializada em desarmar bombas dia e noite pelas ruas de Bagdá, o esquadrão EOD (Explosive Ordinance Disposal) do exército dos Estados Unidos. Homens que devem saber de antemão se aquele determinado civil é um homem-bomba, ou se este ou aquele resto de lixo na calçada esconde um artefato com alto poder de destruição.
O roteirista Boan, presente à coletiva, conviveu um mês com esta patrulha antibomba e sentiu bem de perto o mecanismo do medo-coragem e a capacidade de superação daqueles especialistas. Transferiu sua experiência para o papel, gerando uma radiografia psicológica bastante rica. Entre os desarmadores de bombas, um deles é movido por uma espécie de dependência tóxica de todo aquele entorno, aquela combinação de tensão, medo, desesperança, horror. Necessidade de sobrevivência e paradoxalmente uma superexposição ao perigo. Alguém poderia chamar o processo de atração fatal.
Kathryn Bigelow justificou a escolha do argumento: ''Para mim interessava, mais que os soldados, os seres humanos, aqueles que não assistem aos noticiários da CNN''. E o tema da ''guerra secreta'' levantada ano passado por Brian De Palma voltou a dominar a coletiva. Isto é, aquela sem registro na mídia, aquela que esconde a morte de 4 mil soldados dos EUA. A diretora falou abertamente sobre uma espécie de censura insidiosa que esconde a realidade sobre a invasão do Iraque. Mas, disse ela, ''a opinião pública está mudando, a retirada das tropas vai ocorrer em breve''. E em expressa intenção de voto, concluiu: ''...Mas isto somente será possível com Barack Obama''.
Fechando ontem a programação do dia, o lento, pouco efetivo, difuso e confuso filme argelino ''Gabbla'', de Tariq Teguia, reforça a impressão de que não foi somente em relação a Hollywood que a seleção teve dificuldades, mas também quando mirou na direção dos filmes de autor, ou seja, aqueles capazes de oferecer novidades formais e temáticas que levam o cinema adiante, com olhos de vanguarda. Disto se viu muito pouco, ou quase nada, aqui em Veneza.
* O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Veneza.


