A gente bate o olho e vê que está na frente de uma mulher forte e determinada. Não bastassem esse dois adjetivos, é também simpática, afeita a carinhos verbais sempre entremeados de riso franco. E se ainda tais elogios não são suficientes, vamos a um que resume essa senhora de 42 anos: talentosa. Trata-se de Áurea da Conceição Assis Souza. Quem? Ora, é Aurinha do Coco, uma das mais incensadas cantoras e compositoras de coco e que vem ganhando cada vez mais notoriedade entre os admiradores desse gênero musical. Tanto é que seu primeiro disco, a ser lançado em junho próximo, terá como produtor ninguém menos que Naná Vasconcelos.
Sendo assim, Aurinha não poderia passar despercebida durante o 6º Panorama Percussivo Mundial, Percpan, que foi encerrado ontem em Salvador. Ela integrou o grupo ‘‘Evocação’’, composto por Naná Vasconcelos, especialmente para o evento. Sabedora de que já é um dos alvos prediletos da mídia, Aurinha, entretanto, prefere dizer que continua a mesma pessoa simples, que o coco é a sua vida e et cetera e tal. Verdade seja dita: essa mulher é apontada por muitos como a melhor coquista (como são chamadas as cantoras de coco) da atualidade.
O coco lhe ganhou exatamente aos 14 anos quando um certo dia foi à Colônia dos Pescadores, no Amaro Branco, conhecido bairro de Olinda, e conheceu Dona Jovelina, a maior coquista de todos os tempos. Tempos depois conheceu outro mito, ainda vivo, do gênero - Selma dos Cocos, de quem foi nora e também backing vocal de seu conjunto por quase 15 anos. Sobre a primeira tece elogios e mais elogios. Quanto à segunda, reconhece sua importância artística mas não poupa críticas e mais críticas. E põe crítica nisso.
É que a relação entre as duas ficou seriamente abalada quando Aurinha resolveu seguir carreira solo e fundar seu próprio conjunto, o grupo Rala Coco. Isso há dois anos. ‘‘Ela (Selma) não aceita até hoje eu ter formado meu próprio grupo’’- admite. ‘‘Hoje Selma faz uma apresentação e não aguenta mais cantar dez músicas. Ela tem 78 anos e nega. Para que negar né, querido? Eu graças a Deus ainda danço na ponta dos pés, pinto e bordo’’- diz ela soltando uma gostosa gargalhada.
Ou seja, Aurinha é simpática e coisa e tal mas não é mulher de meias palavras. Perguntou na lata, ela responde na lata. Só sai pela tangente quando indagada se ela se considera a melhor do gênero. ‘‘Não sou a maior nem a menor...Eu só posso lhe dizer que Aurinha é uma das pessoas mais queridas de Olinda porque é humana, compreensiva e amiga de todos’’- afirma.
Então tá! Para bom entendedor um risco quer dizer Francisco. O fato relevante mesmo é que essa senhora é uma grande defensora de uma das mais ricas manifestações musicais brasileiras. Receita para ser uma boa cantora de coco? Ela dá. Mas, como explica, nem todas estão aptas a fazer. ‘‘Tem que ter suingue e grande conhecimento musical. Se não tiver essas duas coisas, meu querido, não se pode ser uma boa coquista’’- diz.
E falando em conhecimento musical, Aurinha, quem diria, tem uma boa bagagem erudita também - durante seis anos, por exemplo, foi cantora (ela é contralto) do Madrigal de Recife. Mas a paixão pela música popular, mais especificamente pelo coco, acabou batendo mais forte. E hoje ela faz shows e mais shows - a um cachê de R$ 2 mil - em diversas partes de Recife e, mais recentemente, em alguns cantos do Brasil.
Aurinha tem fama também de ofuscar outros cantores quando se apresenta coletivamente. No Ecofestival - festival de música realizado na Usina Paulo Afonso, em dezembro do ano passado - ela conseguiu se sobressair até mais que alguns medalhões da MPB igualmente convidados para o evento.
Ela dá boas risadas quando lembra do fato. ‘‘Eu estava no palco que foi feito muito alto e pensava: ‘eu quero chegar perto do povo’. Tanto fiz que consegui e me senti à vontade. Foi só isso que aconteceu’’- lembra. Estar perto do povo. Essa é a grande receita que ela dá para um artista ser reconhecido.
Entretanto, de acordo com o raciocínio da cantora, um artista jamais pode descaracterizar sua arte para conseguir dinheiro fácil. ‘‘Já fiz músicas de duplo sentido, hoje não faço mais. Eu tenho amor pelo coco e por isso eu o canto com muita responsabilidade’’- diz, num dos raros momentos em que conteve a gostosa gargalhada. Se no que disse há alguma farpa para alguém...
Aurinha do Coco não se deixou levar pelo deslumbramento que os spots causam normalmente em artistas em ascenção. ‘‘Tenho noção da minha fama, sim. Sempre agradeço a Deus pelo que consegui. Eu sou assim e vou continuar assim; me aceitem se quiserem. Aliás, Aurinha do Coco sempre será uma coquista que tem amor pelo que faz, uma mulher simples e... gaiata’’- diz. Tá certo, Aurinha, tá certo!!!
O jornalista Antônio Mariano Júnior viajou a Salvador a convite da organização do Percpan.

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