A grande senhora da mídia
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 07 de julho de 1997
Ana Cristina Ioselli TV Press 
Fernanda Montenegro assume com orgulho seus 67 anos de idade. Nunca submeteu-se a bisturi de cirurgião plástico algum e carrega no rosto as marcas da experiência. São 46 anos de carreira, que começou às custas de muitas discussões domésticas, já que, no início dos anos 50, ser atriz significava estar a um passo da prostituição. Resultado: Fernanda transformou-se numa unanimidade quanto ao título de melhor atriz do Brasil. Como aparece na tevê apenas ocasionalmente, a atuação como protagonista de Zazá toma ares de acontecimento.
No set de gravação, o clima em torno de Fernanda é um misto de respeito, admiração e veneração. Quando entra em cena, todos param para observá-la. E a abordagem é sempre com um senhora precedendo seu nome. Fernanda Montenegro gosta de respeito. Mas sabe que a bajulação não vai durar muito. Daqui a pouco estamos todos no mesmo barco, correndo o mesmo perigo, ironiza.
O fato de estar protagonizando uma novela da Globo não muda em nada a visão extremamente crítica que a atriz tem em relação à tevê. O maior pecado da televisão é a mesmice, alfineta Fernanda, fazendo uma analogia com os sete pecados capitais que seus sete filhos têm na trama de Lauro César Muniz.
Para Fernanda, Zazá tem apenas a pretensão de se tornar um bom produto para o público a que se destina. Mas vai logo avisando que não é preconceituosa em relação à tevê e aproveita para ressaltar o lado positivo do veículo. As novelas brasileiras empestearam o mundo. São o nosso produto cultural de exportação, admite, mantendo sempre o mesmo tom plácido ao falar.
Esbanjando classe e simpatia, Fernanda se diz muito feliz em voltar ao vídeo. Principalmente por reencontrar velhos amigos, como Jorge Dória, e ser dirigida por Jorge Fernando, com quem diz se entender muito bem. Especialmente quando o assunto é fazer o público dar boas gargalhadas toda vez que entra no ar.
Interpretar uma protagonista de novela pode se transformar num presente de grego?
Fernanda Montenegro - É uma faca de dois gumes. Se der certo, é um presente. Se der errado, é uma tragédia. Porque é uma cobrança danada. É um empurra-empurra porque não deu certo. Ou é por causa disso, ou daquilo, ou daquilo outro...
O que a convenceu a aceitar o convite para viver Zazá, depois de 11 anos sem protagonizar uma novela?
Fernanda - Aceitei porque é uma novela muito bem escrita pelo Lauro César Muniz. É uma comédia, uma trama que, embora esteja sendo feita com todo carinho, não tem aquela responsabilidade de vida ou morte da novela das oito, que sofre sempre mais uma pressão em cima de texto, de elenco e da direção. Aceitei o convite também porque Zazá tem a direção do Jorge Fernando, com quem fiz Guerra dos Sexos e Cambalacho. Eu me entendo com o Jorginho. Entendo o humor dele... Acho que ele também entende o meu humor.
A comédia é um gênero que deixa você à vontade?
Fernanda - Fico à vontade quando me sinto amparada, no sentido de uma infra-estrutura de produção muito boa, um texto bom, uma direção inventiva, talentosa e sempre muito atenta. Além de um elenco maravilhoso, de comediantes de primeira linha.
Os bordões da Zazá foi você quem inventou?
Fernanda - Uns o autor põe, outros a gente pede licença para usar. Como o autor é generoso, nos deixa colocar uma coisinha ou outra. Nada que mexa na estrutura da novela.
Na trama, você contracena com alguns atores novatos. A convivência é pacífica?
Fernanda - Não estou julgando nada nem ninguém. Estou ali dando conta de um papel que me deram para fazer e eu concordei. O elenco é aquele que me foi apresentado e acho que, de qualquer maneira, quem tem vocação, tem de começar de alguma forma. A televisão é uma indústria, não é artesanato. Tem uma reposição de peças constantes e precisa que novos talentos ou novos rostinhos apareçam.
Para você, que também faz teatro e cinema, o que representa o trabalho na tevê?
Fernanda - Faço tevê desde o início de 51. Fui pioneira, fiz muito teleteatro, algumas novelas e trabalhei com muitos colegas de minha geração. Fiz duas ou três novelas de Nelson Rodrigues... É bonito quando um elenco inteiro e toda a indústria da tevê produz um bom trabalho. Não digo que serão 170 capítulos geniais, mas se 10% do trabalho for bom, vai ser lindo. É o nosso único produto de exportação cultural. Na Finlândia, na Grécia e em vários países tem novela brasileira. Empesteamos o mundo com novela brasileira. Constatei isso na prática.
Quando?
Fernanda - Certa vez, eu e meu marido Fernando Torres chegamos a um restaurante, no interior da França, no Vale do Loire. Eram 11 da noite e a dona do restaurante nos reconheceu de uma novela que havia passado na França. Ela abriu o estabelecimento e nos fez umas omeletes maravilhosas. Eram 23h, dentro de uma província francesa onde tudo fecha às 21h. E ela ficou muito feliz de ter dois atores do folhetim brasileiro lá. A tevê é um referencial. Está bem, não se alcançou ainda alturas de uma arte pura. Mas nem sei se o veículo é para isso. A possibilidade do adestramento, de se tentar uma cultura também televisiva, é interessante. Não sou uma pessoa preconceituosa.
Enquanto filmava Central do Brasil, no interior do país, as pessoas a chamavam de Jacutinga. Você tinha idéia, na prática, do alcance da tevê no interior do Brasil?
Fernanda - Isso me tocou tanto! Fiz apenas 12 capítulos de Renascer e as pessoas me chamavam pelo nome da personagem. Não me importo de ser chamada de Jacutinga, mas essa personagem, especificamente, de uma novela tão brilhante quanto foi Renascer, foi tocante. Acho que, às vezes, há uma má vontade em relação à tevê. Isso não quer dizer que não se tenha um monte de lixo, uma mesmice no ar eternamente. As televisões se copiam muito
E você acha que Zazá vai fugir, de alguma forma, do que vem sendo apresentado na teledramaturgia global?
Fernanda - Não sei se vai fugir... Nem é essa a proposta da novela. Pelo contrário. Acho que é uma novela que está sendo dirigida para ser um excelente produto para o seu horário, com o que de melhor se pode fazer neste clima, neste ambiente.
Como a tevê poderia melhorar?
Fernanda - O que me parece é que existe no ar uma mesma categoria de programação que se repete até a náusea. A mesmice é o grande pecado da televisão. Todas as novelas entram no mesmo horário, todos os jornais entram no mesmo horário. Não tem diversificação, não é uma televisão dialética. Ainda não é uma televisão dinâmica, como eu gostaria que fosse. Mas tem o seu lado positivo. Tem um imenso mercado de trabalho, tem, ou mal ou bem, uma informação para o País inteiro, um país de analfabetos. Há lugares onde o jornal não chega. Nada chega, livro não chega, caderno não chega. Então a responsabilidade da televisão é muito grande. O que falta na tevê são mais debates, mais documentários sobre o país, que não sejam chatos, um jornalismo mais dinâmico, não em cima da notícia, não demagógico, não mundo cão, muito mais minisséries... E gostaria que as novelas fossem mais curtas. Todos nós ganharíamos.
Para viver a Zazá, você fez alguma pesquisa?
Fernanda - Ela é uma simpática senhorinha muito rica, naturalmente, como são os ricos de novela. Tem um tom de comédia dos anos 30, 40. É uma personagem adorável, é aloucada, mas consequente, embora seja frágil. É uma fomentadora de sonhos. Tem uma coragem enorme, mas ao mesmo tempo tem fragilidades. E, principalmente, é uma personagem que dá para se fazer com humor, tirá-la do sentimento e fazê-la farsesca, caricata só.
O trio Fernanda Montenegro, Ney Latorraca e Jorge Dória se diverte muito entre si?
Fernanda - O Ney é muito engraçado. É um grande companheiro de viagem. O Jorge Dória é um grande amigo meu e do Fernando. Foi ele quem levou o Fernando para o teatro. A gente se conhece desde os anos 50. Somos todos cariocas, todos convivemos na boa e velha Cinelândia. Ele foi companheiro de Fernando na Companhia da Eva Todor. Fiz uma peça com ele de grande sucesso, em 1970, uma comédia do Neil Simon, chamada Plaza suíte. Felizmente, agora nos encontramos na novela. E tem o Paulo Goulart, o Reginaldo Faria e um elenco feminino muito bom.
Como você encara o posto de diva da dramaturgia nacional?
Fernanda - Trabalho muito, trabalho com alegria. Só faço as coisas que gosto. As coisas das quais eu não gosto talvez tenha entrado e só no meio do caminho percebo que não gosto. Procuro terminar tudo direitinho, numa boa e nunca mais passo perto. O que o Jorginho falou é bonito: a gente trabalha com prazer.


