De imediato, é bem possível que muitas pessoas não associem imediatamente o nome dela a um trabalho artístico, mesmo o mais recentes. Um breve contato e todos - pelo menos a grande maioria - vai perceber que trata-se de alguém bem familiar por causa das atuações em novelas. Agora, muitos podem não saber: o nome da atriz Ana Rosa está diretamente ligado à história da televisão brasileira.
Àqueles que quiserem conhecê-la, basta sintonizar a partir do próximo dia 28, na Rede Record, quando estreará a novela ''Caminhos do Coração''. No folhetim, escrito por Tiago Santiago, ela vai interpretar a personagem Dalva Montenegro.
Ana Rosa é uma das participantes da 5 Mostra Brasileira de Teatro Transcendental, que termina hoje em Fortaleza. Ela e outros 24 atores levaram ao Theatro José de Alencar e também a palcos de outras cidades cearenses o espetáculo ''Violetas na Janela''. Por onde passou, a montagem arrastou multidão - foram necessárias sessões extras tamanha a procura, intensificada pelo boca a boca.
O espetáculo percorre o País há dez anos contando a história de Patrícia, uma jovem de 19 anos que morre (ou desencarna, de acordo com expressão espírita) e vai para uma colônia espiritual onde revê parentes, amigos e até um grande amor do passado. Depois de várias experiências, a jovem aceita descrever suas memórias através de sua tia, a médium Vera Marinzeck. Foi ela quem condensou os relatos e os transformou no livro ''Violentas na Janela'' , que já vendeu mais de um milhão de cópias.
Ana Rosa e o marido Guilherme Correa (morto há um ano e meio) nem imaginavam que a empreitada de adaptar o best-seller em peça teatral fosse dar tão certo. ''O espetáculo leva uma mensagem de esperança às pessoas. Isso é uma missão'', afirma Ana Rosa. A receptividade tem sido tanta em uma década de montagem, que ela pretende transformar ''Violetas na Janela'' em um longa-metragem.
Enquanto isso não acontece, a atriz vai conciliando apresentações da peça com participações em novelas. ''Fazer televisão ajuda a dar visibilidade ao meu trabalho'', diz. Na Rede Globo, a sua última participação foi em ''Senhora do Destino'', como Belmira, mãe da personagem Angélica (Carol Castro).
Se for levada à risca, a ''estréia'' profissional de Ana Rosa Guy Galego, paulista de Promissão, foi aos quinze dias de vida no espetáculo ''O Mundo Não me Quis'', espetáculo apresentado no circo de seu avô. Com a mesma companhia, aos quatro anos teve sua primeira personagem ''com fala''. Portanto, Ana Rosa tem 61 anos de carreira e tem atuado em teatro, cinema e televisão - a primeira novela foi ''Alma Cigana'', de Cassiano Gabus Mendes, levada ao ar em 1964 na Tv Tupi, onde interpretava a cigana Esmeralda.
Outro marco de sua trajetória televisiva foi a atuação na primeira versão de ''A Viagem'', de Ivani Ribeiro, em 1975, também na Tupi. ''Houve alguns anos em que eu brigava com minha carreira. Não passei fome, mas passei por algumas dificuldades. Quis ser comerciante e até psicóloga porque queria ter uma profissão estável que pudesse manter minha família'', conta. ''Acabei revendo meus conceitos ao reconhecer que se não fosse artista eu seria uma neurótica'', complementa Ana Rosa, entre boas risadas.
A vida pessoal de Ana Rosa foi marcada por alguns acontecimentos dolorosos atenuados, como explica, pelo fato de ter encontrado algumas respostas na doutrina kardecista, a qual estuda e pratica desde 1976.
Os estudos e pesquisas começaram em 1962, dois anos depois de ter perdido um filho de um ano e dois meses. Tinha ela 17 anos. ''Evidente que fiquei revoltada. Foi quando o (diretor) Augusto Cesar Vanucci me deu o 'Evangelho Segundo o Espiritismo'. Daí em diante minha vida foi se transformando aos poucos'', lembra.
Em 1995, outro solavanco: prestes a completar 20 anos, a filha Ana Luiza, do segundo casamento com o ator Guilherme Correa, morreu num acidente automobilístico. Abateu-se, obviamente, mas conseguiu enfrentar a realidade com o que aprendeu nos ensinamentos de Alan Kardec. ''É um sofrimento, mas quando se tem o entendimento de uma lei maior que nos rege você enfrenta as adversidades com uma postura diferente'', ensina. Além dos filhos biológicos (Ana Beatriz e Maria Leone, as duas participam do espetáculo ''Violetas na Janela''; a primeira é a protagonista), a atriz adotou outras quatro crianças.
O engajamento artístico em espetáculos teatrais com cunhos doutrinários parece satisfazê-la plenamente. Ela acredita que eventos como a Mostra Brasileira de Teatro Transcendental ajudam a dar visibilidade maior a uma vertente artística que muitos ainda vêem com olhos céticos ou mesmo preconceituosos. ''Mesmo assim percebo que o público está mais aberto quanto a questões que vão além da vida terrena. Acredito que nesse novo século a doutrina espírita esteja sendo mais difundida, inclusive através da arte'', analisa.
Ana Rosa vai prosseguindo na sua missão, tanto artística quanto pessoal. Se é uma pessoa feliz? Ela pára, pensa, se emociona... E emociona quem ao seu lado está. ''Acho que sim, apesar das perdas que tive... Sim, eu tive muitos momentos de felicidade'', diz entre lágrimas. Com o perdão do clichê, mas Ana Rosa é que se pode chamar de uma pessoa iluminada. Ou, sob a ótica da razão, uma criatura bem resolvida.
(O jornalista viajou a convite da organização da Mostra de Teatro Transcendental)

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