A grande festa das letras
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sexta-feira, 06 de junho de 1997
Adriana Ferreira Agência Estado 
ReproduçãoManoel de Barros: Estou extremamente nervoso e peço licença para não dizer nadaA festa do Prêmio Nestlé de Literatura, realizada na noite de quinta-feira, na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, ficou marcada pela simples, e até humilde, participação de seus premiados, em especial do escritor Carlos Heitor Cony e do poeta Manoel de Barros. Em vez de fazer um discurso de agradecimento, Cony preferiu ressaltar o trabalho que o jovem Claudemir Alexandre Cabral faz na favela de Paraisópolis, em São Paulo, onde mora. O tímido Manoel de Barros também dispensou as palavras. Estou extremamente nervoso e peço licença para não dizer nada, declarou.
A festa teve a atriz Marieta Severo como mestre de cerimônias e começou às 19h45, com 45 minutos de atraso. Figuras do mercado literário se espremeram na entrada da Biblioteca Nacional, que ficou apertada para o número de convidados.
Com direção de Gabriel Vilela e roteiro de Marieta Severo e do coordenador geral do prêmio, Marcus Gasparian, a Biblioteca Nacional teve as suas elegantes pilastras iluminadas com luzes amarelas e azuis. A entrega de prêmios foi intercalada com textos de João Cabral de Melo Neto - o poema Catar feijão deu início à festa - Murilo Mendes, Cecília Meirelles e Carlos Drummond de Andrade.
Mudanças O presidente da Fundação Nestlé, Antônio Salgado Peres Filho, revelou que a organização do prêmio já está de olho no evento do ano que vem e que o formato do prêmio deverá sofrer alterações. A idéia é instituir a categoria crônica. É um antigo sonho nosso, porque esta é uma forma fértil que existe no Brasil, disse. Marcus Gasparian continuará a frente da organização do evento. O Gasparian é nossa principal fonte de inspiração, nosso guru, brincou.
O toque de descontração do prêmio ficou por conta de Carlos Heitor Cony, vencedor da categoria romance de autor consagrado, com o livro O Piano e a Orquestra. Ao saber que receberia o prêmio de Claudemir Alexandre Cabral, um rapaz de 16 anos que desde os 10 dá aulas para as crianças da favela, Cony não resistiu e começou a entrevistar o rapaz. Tímido, Claudemir pouco falou. Mas chegou a revelar que criou uma biblioteca para a comunidade, que hoje já computa cerca de 780 frequentadores. Quando soube da história do rapaz, achei mais interessante falar sobre o seu trabalho do que ficar agradecendo a pai, filho, espírito santo e à Nestlé. Acho que o Claudemir é que deveria receber um prêmio, disse Cony.
Estreante O psicanalista Luiz Alfredo Garcia-Roza, vencedor como ecritor estreante na categoria romance com o livro O Silêncio da Chuva, fez um simpático agradecimento. Esse tipo de prêmio possibilita a um autor estreante como eu, de cabelos grisalhos, se manter jovem, afirmou.
O ministro da Cultura, Francisco Weffort, definiu os premiados como padrões de excelência. Weffort afirmou que é necessário criar condições para que os livros cheguem aos leitores com preços mais baratos. Não conseguimos modificar essa situação por circunstâncias econômicas, lamentou. O ministro convocou as pessoas a se engajarem em uma campanha para mudar o esquema do mercado literário. Precisamos examinar uma proposta de lei que faça com que o livro de qualidade chegue ao leitor a preços baixos.
O prêmio Nestlé de literatura distribuiu R$ 270 mil entre seis categorias. Os premiados foram: Antônio Fernando Borges, em conto estreante, com Que Fim Levou Brodie?; Edla Van Steen, em conto de autor consagrado, com Cheiro de Amor; Luiz Alfredo Garcia-Roza em romance estreante, com O Silêncio da Chuva; Carlos Heitor Cony, em romance de autor consagrado, com O Piano e a Orquestra; Manoel de Barros, em livro de poesia de autor consagrado, com Sobre Nada e Antônio Cícero, em livro de poesia de autor estreante, com Guardar.


