A Grande Família de Springfield
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Mauro Trindade<br> TV Press 
Nunca uma série de tevê durou tanto tempo. São 20 anos no ar, que serão comemorados dia 17 dezembro. Isso sem contar os dois anos quando ainda fazia parte do ''The Tracey Ullman Show'', que saiu do ar em 1990. Há menos de um mês, ''Os Simpsons'' - que a Globo exibe de segunda a sexta - passou a ser veiculado em alta definição, último capítulo de uma saga que começou na ponta do lápis de Matt Groening, um desenhista talentoso que mantinha uma tirinha de quadrinhos em jornais chamada ''Life in Hell''.
A história, estrelada por uns coelhos esquisitões, começou sendo vendida por Groening pelas esquinas de Portland, no estado de Oregon, e acabou chegando aos estúdios da Fox. O produtores queriam utilizá-la na tevê e, quando estava na sala de espera para ser atendido por eles, ficou com medo de perder seus personagens - a Fox queria direitos exclusivos - e inventou os Simpsons. Com uma mistura de pastelão, que as crianças adoram, e sátira política e social, para deleite dos adultos, tornou-se sucesso internacional. Hoje são quase 70 países a exibir o desenho.
O sucesso dos Simpsons é, em grande parte, a medida do fracasso geral em modificar qualquer situação de injustiça, estupidez e barbárie da qual o Homem é responsável desde que se tornou mais inteligente do que um protozoário. Se é que se tornou, como um dos desenhos da série - ''Homer Evolution'' - explicita. Na impossibilidade de transformar esse mundo e seu protagonista primata, transformam-se os desenhos animados, que deixam de lado a ''pureza'' do passado e passam a repetir a brutalidade do cotidiano. ''Tom e Jerry'' já era sangrento, mas nunca exibia as vísceras espalhadas pelo chão. Já em ''South Park'', os ratos estão sempre prontos a mastigar o corpo estraçalhado de Kenny. ''Os Simpsons'' são um pouco mais gentis e os personagens sangram pouco, a despeito de Homer estrangular Bart de forma deliciosamente grotesca.
Aristóteles - ou Molière, para citar um comediógrafo - gostaria dos personagens. Homer e cia. são uma renovada interpretação da ideia de purificação dos sentimentos, na qual o personagem desce aos infernos - ou à sala do mefistofélico senhor Burns, o que é bem pior - por suas escolhas erradas e assim expia os erros de todos. A plateia ri e se livra do fardo da indignação. E Édipo nem precisa ficar cego. Muito menos comer rosquinhas.
É sintomático que volta e meia algum dono do mundo se sinta incomodado com a hipocrisia explícita e tente restabelecer a falsa moralidade vigente. Seja uma agência de Turismo brasileira, depois que macacos raptam Lisa no Rio de Janeiro, ou o presidente George Bush - o primeiro -, que exortou a família americana a ser mais parecida com os Waltons e menos com os Simpsons. O que felizmente nunca aconteceu. Seria ir longe demais.
- Os Simpsons na Globo de segunda a sexta, às 11h35


