A grafia da luz pela
mãos de Haruo Ohara
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Dorico da SilvaHaruo Ohara e suas fotos em exposição: trabalho de mestre Dentro da programação paralela do Festival Internacional de Londrina, que se encerra hoje, um evento possui especial importância. Trata-se da exposição de fotografias do pioneiro nipônico Haruo Ohara aberta no último dia 19 e que permanece aberta até 19 de junho na Casa de Cultura (Praça 1º de maio, 118).
Conhecida e cultuada esparsamente por um pequeno público, a obra de Haruo Ohara ganha sua devida representação abrangente nesta primeira exposição individual. Intitulada ‘‘Olhares’’, a mostra engloba a produção do fotógrafo centrada na década de 50, toda realizada em preto-e- branco.
As fotografias de Ohara podem ser distribuídas em duas estéticas básicas. Uma com imagens obtidas a céu aberto que registram, tanto o processo de urbanidade da cidade de Londrina, como o universo rural do norte do Paraná nas décadas de 40 e 50, onde aparecem, invariavelmente, figuras humanas. Outra com imagens de formas naturais, ou mesmo texturas, que incorporam a estrutura literária do hai-kai japonês.
Na primeira estética, Ohara seria o único a não registrar a história da região no sentido puramente documental. Sua obra, ao contrário, confere um argumento poético ao processo de transformação ambiental e humano - via colonização - da região. Ao retratar o cotidiano, consegue representar em suas imagens o real visto através da sensível lente de um silencioso olhar. O artista que consegue converter em arte os detalhes que permeiam a realidade pelos dias, meses, anos.
Sua visão fotográfica em registrar imagens do cotidiano da cidade e região é completamente diferente do enfoque dos ‘‘fotógrafos oficiais’’. Estes, limitados à objetividade, cantam a aldeia sem conseguir cantar o mundo. Ohara, ao contrário, ao cantar poeticamente a aldeia, canta o mundo. Suas imagens deixam o terreno da objetividade para se ocuparem da subjetividade poética.
Em depoimento à revista ‘‘Kan’’, em 1989, Haruo Ohara, filho de imigrantes, disse que quando saía de casa para o trabalho na lavoura de café, levava consigo sua máquina à tiracolo e a enxada nos ombros. Pendurava a Rolleiflex num galho de cafeeiro e cumpria sua jornada com a enxada. Quando via alguma coisa interessante, colocava a enxada de lado, pegava a máquina e registrava. Foi assim que nasceu, por exemplo, a imagem em que aparece um filhote de tico-tico pousado sobre dois caquis.
Com esta prática, Ohara poetizava sua arte envolvendo o elemento acaso, o desprendimento pessoal como ingredientes de suas fotos. Isso não eliminava seu esforço técnico. Em algumas situações permanecia horas e dias testando luminosidade e enquadamento adequados.
Embora Haruo Ohara seja apresentado como um artista capaz de arrancar belezas de cenas onde antes havia apenas a realidade em estado bruto, capaz de transformar o ordinário em extraordinário, sua obra indica um outro elemento latente à arte fotográfica. Prova que a beleza estética está na capacidade do artista em conseguir ler a beleza presente na cena, ou objeto, a ser fotografado. Cabe a ele percebê-la e conseguir potencializá-la, perpetuá-la, através da escrita da luz.
O grande evento histórico do Festival Internacional de Londrina não foi exatamente a homenagem aos 100 anos do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Ele está, com certeza, na organização desta primeira exposição fotográfica de Haruo Ohara, em seus 88 anos de vida. Um evento acalentado por anos e anos por aqueles que travaram contato com sua obra, com objetivo de revelar a grandeza de um trabalho cujo autor não vê nenhum sentido em divulgar.

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