A graça e a desgraça em Macbeth
Jackeline Seglin
Divulgação‘‘Macbeth o Macabetto’’: horror e luta pelo poder acabam em risoShakespeare e Verdi. Essa união pode resultar muita coisa, inclusive num concerto teatral, um cerimonial de sangue e usurpações. Foi essa a alternativa do grupo espanhol Teatre Del Bon Temps para a criação de ‘‘Macbeth o Macabetto’’, espetáculo que será apresentado hoje e amanhã, às 23 horas, no Núcleo 1, dentro da programação do Festival Internacional de Londrina (Filo).
Mas não vá esperando mais uma montagem clássica do texto de Shakespeare. O diretor Xavier Albertí fez uma adaptação que transformou o espetáculo num jogo de referências, trocando a tragédia pelo divertimento. Imagine o que pode sair de uma mistura de Verdi, Ray Charles, Shakespeare, música gospel... e um brinde de bloody mary (bebida à base de suco de tomate e vodca)?! ‘‘Um espetáculo surpreendente’’, responde o ator Arnau Viladerbó Cladellas.
O público, segundo ele, geralmente não espera o que vê nesta montagem moderna de Shakespeare. ‘‘O espetáculo é um jogo. Pegamos a essência de Macbeth e montamos a peça em apenas uma hora. Uma montagem contemporânea, que mistura a dramaturgia de Shakespeare com a ópera de Verdi’’, explica.
Arnau comenta que na ópera ‘‘Macbeth’’, o compositor Verdi fez uma simplificação do texto de Shakespeare. ‘‘E agora nós fizemos uma coisa mais simplificada ainda. Com a junção do texto com a ópera, pudemos desfrutar muito mais’’, diz.
No cenário deste casamento, um piano e uma bateria. ‘‘Falamos através das músicas de Verdi’’, observa a atriz Chantal Aimée. Mas não é só isso. O musical ultrapassa o estilo de Verdi e passeia por vários ritmos: jazz, soul, gospel, música flamenca e até bossa nova fazem pano-de-fundo para Macbeth e Lady Macbeth cometerem suas atrocidades. Na montagem, Xavier Albertí faz o papel de uma bruxa que tem bom ouvido, mas que desafina completamente quando canta - aí entra um trecho de ‘‘Desafinado’’, sucesso de Tom Jobim e Newton Mendonça, gravado também por João Gilberto.
Aliás, o espetáculo está cheio de elementos cômicos que transformam o horror e a luta pelo poder num riso contagiante. Lady Macbeth, por exemplo, passa por um caminho nada convencional ao se portar como uma aprendiz de roqueira que adora bateria. Já Macbeth, na leitura do grupo, pode ser um empresário que consulta o psiquiatra (no caso, as bruxas).
A violência do texto shakespeariano continua sendo importante ingrediente na montagem do Teatro Del Bon Temps. ‘‘O bloody mary é um símbolo do sangue, o sangue poético’’, conta o ator Pere Box. Na adaptação do texto, Xavier Albertí procurou destacar os trechos mais violentos, para depois transformar a maldade em comédia. ‘‘É um espetáculo concentrado, que tem uma visão moderna misturada à essência de Macbeth, ou seja, ao desejo do poder e à incapacidade de assumi-lo’’, detalha Arnau.
Os personagens de ‘‘Macbeth o Macabetto’’ estão rodeados de maldade, ganância e traição, intercalados por doses de humor. Prova disso é a cena em que Macbeth, ao representar o assassinato do rei e todo seu império de sangue, prepara o bloody mary para brindar a desgraça humana. O final desta história, todos sabem. Difícil é calcular a dose.
O grupo Teatre Del Bon Temps se apresentou pela primeira vez em 1993, com a peça ‘‘Othelo’’, também de Shakespeare. ‘‘Cada um de nós tem sua atividade teatral. Somos free-lancers e sempre estamos fazendo montagens diferentes’’, conta Chantal. Em 1997, reuniram-se novamente para a montagem de ‘‘Macbeth’’.
• Macbeth o Macabetto - com o grupo espanhol Teatre Del Bon Temps. Livre adaptação de Xavier Albertí, baseada na obra de Shakespeare e no ópera de Giuseppe Verdi. Hoje e amanhã, às 23 horas, no Núcleo 1 (Rua Quintino Bocaiúva, 1.243). Elenco: Xavier Albertí, Chantal Aimée, Arnau Viladerbó Cladellas e Pere Box. Iluminação: Albert Faura. Música: Xavier Albertí. Duração: 60 minutos. Ingressos a R$ 10,00 (estudantes, idosos e funcionários da Universidade Estadual de Londrina têm 50% de desconto).

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