A glória é passageira
Para Paulo Cesar Pinheiro, 30 anos de carreira
e 50 de vida, a arte é imortal, e a glória, efêmera
Zeca Corrêa Leite
Aniversário é coisa boa, é a celebração da vida. Que o diga o poeta e letrista Paulo Cesar Pinheiro. Em Curitiba, ele deu o pontapé inicial de um projeto que vai atravessar este resto de ano e o próximo, sem perder de vista as alegrias dos 30 anos de carreira e dos 50 de vida, a serem completados em 1999. O show, realizado no Teatro do Paiol, com o parceiro Maurício Carrilho, foi o primeiro de uma série que se repetirá pelo Brasil, além de outros eventos.
Entre eles estão a publicação de um songbook, enfeixando sua obra que atinge cerca de 800 músicas gravadas; um CD somente com músicas suas, sem parcerias; espetáculos diversos nos quais participará com variados intérpretes.
No âmbito literário constam quatro livros de poesias. Virão ao mercado dentro de um projeto que irá se esticar até 2001. Pretendo ultrapassar o milênio botando coisa na rua; música e poesia, diz exultante o poeta. Vai ser uma comemoração de um tempo grande de vida e de carreira. Um baú cheio.
Pode-se viver de poesia?
Paulo Cesar Pinheiro - Desde que comecei a escrever - o primeiro verso foi aos 13 anos de idade - eu nunca mais parei. Quando não estou fazendo letra de música, estou fazendo letra de livro. Quando não é para valer, é pelo menos para exercitar. A minha grande satisfação nisso tudo é que jamais tive outra profissão. Num País como é o Brasil, em que é difícil para todo mundo viver dignamente, eu consegui viver de poesia até hoje, com dignidade.
Essa exceção se dá por uma luta constante pela profissão, ou é fruto de uma grande sorte?
Paulo Cesar Pinheiro - Se dá por ambas as coisas, principalmente por uma luta constante. Tive sorte de ter tido os maiores parceiros, os mais importantes da música brasileira, e ter tido os intérpretes que tive. Elis, Elizeth, Clara, Simone, Nana, MPB-4 todos me gravaram. Meu primeiro parceiro foi João de Aquino, grande violonista que é primo direto de Baden Powell. Através de João conheci Baden, e me tornei parceiro dele, novo ainda, aos 16 anos.
Profissionalmente você se iniciou na carreira com Lapinha. Não deu medo, não foi muito peso começar por cima?
Paulo Cesar Pinheiro - Não, porque eu não tinha consciência disso. Na época estava com 19 anos. Foi até uma grande sorte esse festival, porque foi o único da Record que só teve convidados, todos profissionais. O único amador era eu. O resto era Cartola, Cavaquinho, Sinval Silva, Elton Medeiros, Paulinho da Viola, Chico Buarque. O Baden foi convidado juntamente com o Vinícius, porque eles eram parceiros. Naquele momento o Baden estava apaixonado por Lapinha, que havíamos feito um pouco antes. Ele falou que só entraria se fosse com esse samba. Aí ele entrou e entrei junto.
Festival faz falta?
Paulo Cesar Pinheiro - Está fazendo falta. Festival era uma vitrine importante, uma mostra, um jeito das pessoas novas mostrarem suas músicas. Depois ficou meio festival de gravadora, entrou um negócio mercadológico e foi por isso que acabou. Mas enquanto não tinha dedo de gravadora no meio, foram muito importantes. Tanto que hoje os mitos, os ídolos são os mesmos que saíram desses festivais. Se houvesse hoje, dentro daqueles moldes, seria novamente importante. Tem muita gente querendo mostrar suas coisas e não consegue mais.
Sem contar que há o amordaçamento dos modismos...
Paulo Cesar Pinheiro - Exatamente. É uma saca, a cada ano, de alguma coisa. Antes não tinha muito disso. Ninguém estava ali querendo fama nem dinheiro; queria mostrar a sua música. Eu frequentava a casa dos músicos, e toda semana tinha pelo menos duas reuniões de música. As pessoas mostravam suas composições, havia um estímulo constante. Você ouvia maravilhas e saía dali louco pra fazer alguma coisa boa, também. Hoje, as pessoas sequer se vêem, quanto mais trocar informações.
Então a frase o importante é que a nossa emoção sobreviva, retirada de uma música e transformada no título de um show, muito apropriada para a época, foi profética para os dias de hoje?
Paulo Cesar Pinheiro - Com certeza. Se as pessoas se voltassem mais para a emoção, não seria essa música que hoje rola aí. A que tomou conta do País, a meu ver, passou a ser um produto como outro qualquer. Desodorante, sabonete, coisa que se troca no ano seguinte. O que é que sobrevive hoje para o ano seguinte? Que música você lembra do ano passado? Você lembra das músicas de 30 anos atrás; canta, tem o disco em casa. Você tem o quê do ano passado? Essa velocidade fez com que se gerasse um produto de mercado, e arte não é isso. Arte é para sempre. E só acontece dessa forma com emoção, não com fórmula mercadológica para fazer sucesso. Para mim isso não é música.
No exterior ela ainda é apontada como uma das melhores do planeta.
Paulo Cesar Pinheiro - É considerada lá fora como uma das mais ricas de todo o mundo, pelo menos nos últimos 30 anos, para ficar mais por perto. Mas hoje estão reclamando do que está indo para lá. Nos grandes eventos, como o Festival de Montreaux, o que está indo não é o que o pessoal está querendo. E eles estão começando a reclamar: É isso a música brasileira de hoje? São as frases que ouço de pessoas de lá. Isso mostra que houve mudança - para a mediocridade.
Você tem problemas para gravar?
Paulo Cesar Pinheiro - Antes eu gravava muito mais. Hoje gravo mais fora do Brasil do que aqui: na Europa, nos Estados Unidos, no Japão. Não é que minha música mudou, a qualidade dela é a mesma. Não foi mexida. Quando a mando para as pessoas, elas gostam, mas quando entram nos estúdios existem outros segmentos que bloqueiam, impedem que cheguem ao disco. São produtores, são diretores de gravadora que conduzem de alguma forma para esse mercado os seus casts. Se as pessoas se submetem a isso, é problema delas. Eu não vou mexer no que faço por causa disso. Acho que nem eles deviam mexer na sua vida, como profissionais, por causa disso. Mas a glória, o dinheiro, a ambição sempre falam mais alto. É uma coisa do ser humano, é a fraqueza do ser humano.
O que é mais frágil: a glória ou a arte?
Paulo Cesar Pinheiro - A arte é imortal. A glória é passageira e a fragilidade dela está nisso. A glória e o dinheiro para ser feliz não existe, diz o mestre Caymmy. Sei que daqui a 300 anos minha música vai ser escutada e isso me satisfaz. E a minha poesia também faz parte disso.
Você se posiciona mais como poeta dos livros ou da música?
Paulo Cesar Pinheiro - Eu nasci fazendo as duas coisas; elas correm paralelamente. Ao mesmo tempo que comecei a fazer música, comecei a fazer versos de livro. Não escolho aquilo que estou fazendo, sou escolhido por uma das duas coisas. Elas é que me levam.
Se tiver uma livraria e uma casa de discos, onde você entra?
Paulo Cesar Pinheiro - Nas duas.





