Francelino França
A massacrante sombra da globalização está transformando decisivamente as relações do homem. Os efeitos disso na aldeia global podem ser observados na indústria cultural, que impôs um ritmo veloz ao consumo da arte. O que nasceu para frutificar no reino da eternidade, fenece no abismo do descartável.
O teatro também está sendo macerado pela globalização. Pelos palcos dos Jorg Scharfestivais, pode-se observar as consequências disso. Várias tendências dialogam ao mesmo tempo em distintas partes do planeta. Muitos espetáculos estão apoiados em vários idiomas para atingir a comunicação, uma cascata de informações marca a dramaturgia de autores jovens, além do controle técnico visual das encenações. Resta saber se o ofício do ator também precisa ser múltiplo, e se o ator precisará dominar ao mesmo tempo vários canais de informação, para encontrar novamente o gesto de Hamlet erguendo a taça.
Uma prova deste novo conceito de encenação foi apresentada durante essa edição do Festival Internacional de Londrina, Filo. O espetáculo ‘‘In Spite of Wishing and Waiting’’, do grupo belga Win Vandekeybus & Ultima Vez, agregou dança, teatro, música e cinema, de forma a extrapolar todos os limites da arte. O espetáculo foi considerado impactante pela inovação da linguagem cênica usando viris bailarinos. Simultaneamente, era incômodo pelo inusitado da proposta.
Para discutir as consequências da globalização na ribalta, a Folha2 reuniu esta semana Nelson Dias, ator equatoriano, representante do Conselho Consultivo da Rede de Promotores Culturais da América Latina e Caribe; Jorg Scharpff, representante do Festival de Hannover (Alemanha), que participou do IX Encontro da Rede e Javier Margulis, diretor teatral do grupo La Barraca da Argentina, artista plástico e, como gosta de frisar, pai de família. Os efeitos da globalização se comportam de maneira diferente nas artes cênicas, comparativamente ao que ocorre na área musical. Os debatedores destacaram, entre outras coisas, a importância da manutenção dos festivais de teatro como o Filo, para acompanharmos os caminhos do teatro na aldeia global.


Quais os rumos do teatro no próximo milênio? Será aproveitada cada vez mais a multilinguagem? Vocês acreditam que os espetáculos teatrais se caracterizarão pela overdose de informações nos textos, queda da barreira do idioma e grande apelo visual e musical?
Nelson Dias - Eu penso que há dois aspectos em relação a essa questão. Primeiro, a utilização da multimídia nas artes é uma corrente ocidental. Talvez seja moda, não sei se será definitiva nas artes cênicas. Por outro lado, existe uma linguagem mais pura, mais elementar, como o Teatro Piollin, apresentado no Filo, que está aproveitando muito bem a sensibilidade natural dos atores.
Javier Margulis - A diversidade que existe hoje vai continuar existindo. O teatro puro também vai seguir, é necessário. Particularmente, me interessa pouco a multimídia, gosto da cena relacionada ao artesanal, pois é uma maneira de conservar o teatro para os artistas e para o público. É preciso lutar com coisas que nos distraem do essencial.
A globalização vai colocar uma linguagem mais universal no teatro ou quanto mais regional for o teatro, mais universal?
Jorg Scharpff - Creio que as duas coisas vão existir, tanto a globalização, quanto a regionalização. Não tenho medo da globalização, mas quando tudo se torna homogêneo não me interessa. Na música o perigo é maior, mas não na área teatral.
Nelson - A globalização está ligada ao dinheiro. No mundo de hoje, dois grandes mercados estão competindo, Europa e Estados Unidos. Isso vai se radicalizar mais. Mas existe um nível de arte que vai sobreviver por si mesmo e pela sua missão. Estamos trabalhando nisso. Penso que a globalização vai ser um inimigo forte. Os festivais têm um papel contundente nesse sentido. A globalização está ligada aos governos, muitas vezes, comprometidos com o mercado.
Javier - Não sou contra a globalização. A globalização é o que o homem conseguiu no momento como sinônimo de universal. Por isso temos de aproveitar essa possibilidade para comunicar. A globalização mostra uma realidade do mundo e existe o risco de se padronizar essa realidade com as ferramentas existentes hoje. Para mim, a arte tem de ser periférica.
E o ator, como fica nessa? Terá de ser cada vez mais múltiplo dentro de seu ofício?
Javier - Um bom ator deve estar vinculado com as outras áreas, ser um bom espectador de artes plásticas, da música, etc. Não creio que ele precise fazer tudo. Há diversos tipos de atores. É a teatralidade que interessa, um tipo de teatro em que o ator possa se expressar, e neste sentido, ele vai se orientar mais.
Jorg - Quero que o ator toque meus sentimentos, quero ver coisas novas. Se há um intercâmbio entre o ator e as novas mídias, isso não é importante. Nós precisamos de atores com carisma.
Nelson - Artista é sinônimo de ser sensível. É o ser que expressa de determinada forma a sensibilidade. O importante é que ele maximilize isso. O ator precisa usar sua capacidade de sensibilização com as novas ferramentas que surgiram, mas não usar só esse artifício. As artes cênicas não podem estar a serviço da tecnologia, a tecnologia deve estar a serviço das artes cênicas.
No futuro, a sobrevivência do teatro dependerá exclusivamente dos festivais? E no circuito comercial, o público terá apenas à disposição espetáculos de entretenimento?
Jorg - Há uma chuva de festivais na Europa, mais de 1.000. Mas não há ligação com os festivais como aqueles que aconteceram na Grécia. Os festivais abrem a possibilidade dos artistas viajarem, como estou tendo. Hoje, vejo espetáculos em Londrina vindos de Nova York e Buenos Aires. Na Alemanha, há o teatro estatal formado por grandes equipes e que tem apresentações quase todos os dias, mas também há os festivais .
Nelson - No Equador, não existe tradição de festivais. Existem ações artísticas empreendidas pelo governo, como parte de campanhas eleitorais. O governo contrata grupos, mas não tem o mínimo sentido artístico, ideológico. Isso significa proselitismo político. Deve-se considerar o fenômeno da globalização. Essa globalização nos força a estarmos atualizados com o fenômeno da multimídia. Temos que competir com essa dinâmica de informática, isso me parece distante. A arte precisa rever sua situação de catalizadora, senão desaparecerá. O artista acaba precisando atuar em canais diversos. A verdadeira arte, ao menos no Equador, está numa situação especial. Temos muitos artistas e queremos manter nossa linguagem.
Javier - Na Argentina, há muitos teatros hoje. A imprensa e a publicidade produzem espetáculos, a concorrência é absolutamente desleal. Como diretor, vivo da minha produção, sobrevivo como artista. Trabalho com atores de primeira linha. Tenho meu próprio espaço com uma sala para 20 espectadores. Se houver 5 pessoas que não puderem assistir, faço outra apresentação. Cada espetáculo mantenho por 3 ou 4 anos em cartaz. Há 5 ou 6 anos na Argentina apareceu a figura dos produtores culturais, eles estão ligados à política oficial patrocinadora dos espetáculos. Mas sempre vai sobreviver esse outro teatro mais puro, em algum lugar ele vai surgir. Confio mais no espetáculo suficientemente potente para que o espectador saia comovido. Como exemplo, há um espetáculo em Cuba exibido para 4 pessoas numa cozinha. Há uma qualidade de informação muito grande nessa peça.
Hoje os pensadores e intelectuais estão ressaltando a necessidade de se discutir uma nova ética, uma nova postura diante do mundo e do semelhante. O teatro sempre antecipou essa ética?
Nelson - A arte já revelou essa outra sensibilidade, porque o papel da arte é de filtro da sociedade. Essa sensibilidade é uma espécie de profeta do povo. A arte sempre esteve conectada com essa sensibilidade.
Javier - Diante dessa discussão sobre ética, o que me preocupa é a insensibilidade geral. Meu teatro é, de alguma forma, contra essa acomodação.
Qual a importância da existência de festivais como o Filo, que se caracteriza por apresentar espetáculos experimentais em espaços alternativos?
Javier - Londrina é uma excessão. Geralmente, em outros festivais, somos convidados somente para os dias da apresentação e depois desaparecemos. Isso por questões econômicas. Mas é muito perigoso. O produto final, a conexão entre os artistas desaparece. O Filo me fascina por isso. Em Londrina, a exemplo de Cadiz (Espanha), nos convidam para todos os dias. É importante você poder falar também sobre outras coisas, descobrir o que faz o ator, quais os rumos do teatro e de que forma ele está se comunicando com o público. Em relação a espetáculos experimentais, não gosto que estratifiquem o teatro em experimental e comercial. Todos são espetáculos. Me irrita, por exemplo, falar em teatro de imagens, como se os outros espetáculos não tivessem imagens. Qualquer tipo de classificação é arbitrária.
Nelson - É importante que exista um Festival como o de Londrina. O Festival Internacional de Londrina é mais forte do que a conjuntura política. Sinto como se fosse uma forma de resistência. O público é muito receptivo e respondeu a contento, é um público que o Festival está criando.
Jorg - Busco um caminho para a anulação entre teatro experimental e profissional. O Filo reúne coisas diferentes, como o Teatro Piollin e o Ballet de Londrina. Essa reunião é o melhor atrativo deste Festival.O processo de globalização e sua relação com a produção teatral foi tema de um debate promovido pela Folha2 durante a realização do Filo
Josoé de CarvalhoNelson Dias: ‘‘A tecnologia deve estar a serviço das artes cênicas e não o contrário’’Josoé de CarvalhoJavier Margulis: ‘‘Na discussão sobre a ética, preocupa-me a insensibilidade geral’’Jorg Scharpff: ‘‘Busco a anulação entre o teatro experimental e o teatro profissional’’

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