Ranulfo Pedreiro
De Londrina
A capoeira está crescendo e influenciando diversas artes. Em Londrina, o grupo Maculelê lançou um CD com músicas inéditas que já vendeu quase 2 mil cópias
O toque de Angola anuncia a abertura da roda. Em pouco tempo, entra o toque de Benguela, intermediário. Se a luta for mais aberta, demonstrativa, começa o toque de São Bento pequeno. Quando a percussão marca o São Bento grande, não há espaço para iniciantes: o jogo é alto, mais violento e confrontado. Quando surge o toque do iúna, a batida é apenas dobrada, sem canto, para apresentação de mestres. Mas se alguma presença indesejável se aproxima, logo soa o toque da cavalaria, funcionando como um alerta.
Estritamente ligada ao ritmo e à musicalidade, a capoeira se desenvolveu como uma arte da sobrevivência. Em Londrina ganhou adeptos como o grupo Maculelê, que conta com mais de 15 anos de estrada e está lançando o primeiro disco. ‘‘Quebrando a Corrente’’ traz 23 cantos e ladainhas de capoeira com diversos convidados. O esporte está crescendo tanto que os 2 mil exemplares da produção independente estão praticamente esgotados.
‘‘O disco mostra o trabalho de todo o grupo e ajuda a promover a capoeiragem, já mandamos 280 cópias para Nova York’’, comenta mestre Fran, presidente do Maculelê. As únicas duas faixas não inéditas são ‘‘Quem faz a Mim’’ e ‘‘Zumbi é Rei’’, ambas interpretadas e compostas por Mestre Leopoldina, convidado especial da gravação.
‘‘Muitas músicas surgiram na roda e contam a nossa história. E o pessoal das academias procura a novidade, consome bastante o novo para utilizar nas aulas. A gente costuma dizer que, na capoeira, o mestre dos mestres é o berimbau’’, completa mestre Fran. A argumentação ganha respaldo na letra de ‘‘Capoeira Maculel꒒, de Chico: ‘‘A capoeira do grupo Maculelê/ Tem muito axé, tem mandinga e tem dendê/ E o berimbau, instrumento genial/ que me dá forças para na roda eu entrar (...)’. Como o CD teve boa repercussão, o Maculelê já está providenciando outra tiragem, ao mesmo tempo em que prepara outro lançamento para o final do ano que vem.
‘‘A capoeira precisa de incentivo. Nossa idéia é pôr a capoeira nas escolas, e 30% da renda deste disco vai para este projeto. Estamos com 45 crianças carentes que treinam todo o sábado na academia. Nós passamos noções de higiene, falamos contra as drogas, ensinamos a capoeira, a tocar e a fazer o berimbau. A molecada se identifica bastante’’, acrescenta.
Com uma história de resistência, usada pelos escravos como arma e instrumento de preservação cultural, a capoeira foi transmitida de geração para geração. Por algum tempo a prática sofreu o risco de desaparecer. Em 1890, foi proibida no Brasil. A clandestinidade durou até a década de 40, quando foi legalizada por Getúlio Vargas.
A manemolência original da dança ainda encontra representação na capoeira de Angola, considerada a original, ‘‘mãe’’ de outros estilos. O Regional foi desenvolvido pelo mestre Bimba, que tornou o jogo mais agressivo, alto, com novos toques.
Talvez o mestre Pastinha não imaginasse a importância que teria quando fundou a primeira academia de capoeira, em 1910. Hoje, a prática se espalhou por diversos países. A capoeira se estruturou como dança, luta, esporte, música e história. Suas influências alcançaram o cinema, coreografias, gêneros musicais, moda e artes plásticas.
Além disso, as academias costumam manter trabalhos sociais, atendendo crianças carentes. Nascida como uma prática de excluídos, hoje a capoeira tenta auxiliar quem ainda não encontrou espaço na sociedade. ‘‘Quebrando a Corrente’’ pode ser comprado pelo telefone (43) 341-8489.

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