A geografia da dor e da obsessão
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de março de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha 2 
Num ano em que as candidaturas parecem mais esquálidas que de hábito, Entre Quatro Paredes (veja a programação de cinema nesta página) emerge acima dos demais nominados a melhor filme como uma intensa, soberba peça de câmara. Mas por sua própria tessitura dramática difícil, penosa, num certo sentido européia demais para o colegio eleitoral acadêmico, deste magnífico trabalho de estréia de Todd Field deve levar no máximo uma ou duas estatuetas colaterais na cerimônia do próximo dia 24, com boas chances de duas delas acabarem nas mãos de Sissy Spacek e Tom Wilkinson, a dupla central de intérpretes que metaboliza o melodrama de maneira impecável, filtrando as dores e as emoções de um desastre familiar.
A história, baseada em conto de André Dubus (falecido em 99, logo após iniciar a adaptação para o cinema), começa com um romance sob o radiante sol de verão de uma pequena e pacata cidade da costa do Maine, onde a principal atividade econômica é a pesca de lagostas. O jovem e quase arquiteto Frank Fowler (Nick Stahl), está saindo com Natalie (Marisa Tomei). Ela é mais velha, tem dois filhos e está separada há pouco do marido, que parece não aceitar de bom grado a ruptura e com quem mantém uma relação tensa. Os pais de Frank se preocupam com a situação. A mãe, Ruth (Sissy Spacek), dirige o coro de uma escola local. O pai, Matt (o inglês Tom Wilkinson, até aqui mais conhecido como o striper relutante de Ou Tudo ou Nada), é médico conceituado. No espectro social, os Fowler são da classe média acomodada, com eventuais inquietações intelectuais e pensamento liberal-progressista, estando portanto aptos a tratar com o filho único questões mais delicadas como as relações afetivas do rapaz - ainda que subliminarmente não aprovem a ligação com Natalie, eles evitam manifestar explicitamente qualquer contrariedade. E então ocorre um confronto radical entre Frank e o marido de Natalie. As consequências deixam Ruth e Matt destroçados. E o espectador não fica imune à esta devastação
Mas se o argumento inclui um crime, o tema central está longe disso. In the Bedroom não é um thriller, embora se alimente de pressupostos do gênero para mostrar relações familiares que desmoronam, a princípio em calma, depois com estrondo. Com a tragédia, o olhar penetrante do diretor Todd Field (o amigo de Tom Cruise em De Olhos Bem Fechados) se concentra mais nos pequenos detalhes do cotidiano, nas condutas que revelam o desconsolo, o vazio, o imobilismo, a ira e outros tantos sentimentos difusos gerados pela morte extemporânea e brutal de um ente querido. Mas este enfoque disseca o perturbador efeito que a perda injusta e incompreensível produz no que resta do núcleo familiar. O entre quatro paredes do título vem da explicação metafórica dada por Matt logo no início: quando duas lagostas ficam juntas numa mesma gaiola, acabam se atacando mutuamente.
Já não sei o que fazer, desaba em lágrimas a impotência de Ruth. Estas palavras vão encontrar em Matt a esperada correspondência. A trama se faz mais densa quando aborda a questão central, isto é , o casamento de Matt e Ruth, e mostra até que ponto dor e tristeza podem se converter em culpa e fúria. Todd Field sabe reconhecer seus personagens como seres reais, bem mais além das suas singularidades sócio-culturais, o que torna mais fácil uma identificação com eles. A direção não é menos inteligente quando retrata a todos com imparcialidade e profundo interesse humano, sem direcionar simpatias para este ou aquele. Nenhum suborno afetivo, nenhum partido a tomar. A visão do problema resulta assim mais abrangente, provocante e complexa.
Mesmo que não tenha espaço para o humor, Entre Quatro Paredes remete à Beleza Americana. E também ao ainda inédito O Quarto do Filho, de Nanni Moretti. Não apenas pela morte de um filho e pela subsequente desintegração de uma célula familiar classe média, que parecia normal na superfície. O filme de Field é precioso também na distribuição dos tempos, dos rítmos internos da narrativa, da organização dos planos, da montagem que entrelaça a alma angustiada dos personagens através de espellhos, vidros e janelas. Longe de Hollywood e muito próximo de uma sensibilidade européia (escandinava ou bergmaniana, é bem possível), In the Bedroom é um filme atípico, com suas gélidas e intransigentes paisagens emocionais que não condizem com a noção aceita de tragédia, impulsionada pela redenção. Um filme, afinal, que confia tanto na eloquência de seus atores quanto na percepção e inteligência do público.


