'A gente sentia no corpo a primavera'
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Trata-se de uma pequena senhora. Pequena na estatura, não chega a ter um metro e meio de altura. Mesmo assim, como a dimensão não está atrelada à estatura, possui cinco nomes distintos.
Nasceu como Fumiko, em 1924, no Japão. Ao chegar ao Brasil, em 1937, foi batizada como Clara. Quando começou a escrever haikais adotou o nome de Mitiyo. Posteriormente adotou outros dois nomes como assinatura de outros gêneros literários da cultura japonesa.
Fumiko Sugimoto, aos 75 anos de idade, é a última remanescente dos discípulos de Nenpuku Sato no Norte do Paraná. Morando no centro de Londrina, ainda mantém vivo os ensinamentos do mestre.
De maneira simples, Fumiko não se constrange em contar sua sofrida história. Chegou ao Brasil com 13 anos de idade. Um rico casal de japoneses sem filhos que aqui residia, a adotou com o compromisso de que, no Brasil, a garota seria bem cuidada e se dedicaria apenas aos estudos nos melhores colégios de São Paulo. Sua mãe, viúva, pensando no promissor futuro da garota, acreditou que se tratava de uma bênção.
Quando Fumiko desembarcou no porto de Santos, em 1937, viu que a realidade era outra. Levada para uma fazenda de café e algodão na região de Taquaritinga (SP) foi obrigada a acordar cedo e pegar na enxada. O casal não era rico como dizia e a garota passou a ser maltratada. Suportou por dois anos a situação até conseguir fugir. Percorreu sozinha o interior de São Paulo para poder encontrar a irmã mais velha. Posteriormente transferiu-se, com a irmã, para Marialva (PR) e depois fixou-se em Londrina.
Desde cedo tinha o hábito de escrever solitariamente poesia, sem nenhuma ajuda, sem nenhum professor. Isso até 1956, ano em que conheceu Nenpuku Sato. Uma amiga, sabendo de seus escritos, avisou que o mestre estava passando pela cidade e ela poderia ter aulas com ele. Nessa noite, com o filho caçula em um dos braços e seus cadernos de poesia no outro, Fumiko se apresentou a Nenpuku. O professor olhou-a de alto a baixo, em silêncio, durante um bom tempo e disse: Oh! Esta senhora vai entender haikai. Após olhar o caderno, sua previsão se confirmou. A partir deste dia passou a frequentar as aulas do mestre, galgando, lentamente, posições mais elevadas na rígida hierarquia do aprendizado.
Em depoimento à Folha2, Fumiko relembra que as reuniões presididas por Nenpuku na cidade chegaram a reunir cerca de 150 pessoas. Cada participante, após a explanação do professor, escrevia vários haikais a partir de temas previamente propostos. Os poemas eram depositados numa grande caixa de papelão e na sequência, sorteados ao acaso, eram divididos entre os participantes para serem lidos e comentados. No final, o mestre dava a palavra final, apontando os melhores. Nenpuku dirigia reuniões semelhantes em toda a região, em Assaí, Uraí, Maringá, Arapongas e Cianorte.
Fumiko Sugimoto afirma que Nenpuku ensinava tudo sobre as estação climáticas do Brasil, diferentes das estações do Japão. Falava das nuvens, dos ventos, das flores de determinada época do ano. Ensinamentos que, nas palavras de Fumiko passaram a fazer parte de cada um dos discípulos: Depois de andar tanto tempo com ele, a gente aprendeu a sentir no corpo a primavera, os detalhes das estações.
Entre as reuniões, realizadas anualmente, acontecia as chamadas excursões de haikai. Nenpuku comandava viagens em grupo por várias regiões do Brasil, passando por pontos turísticos naturais. Durante as viagens o grupo ia criando haikais inspirados pela paisagem.
Após a morte de Nenpuku, ocorrida em 1979, o grupo local continuou se reunindo uma vez por semana para a prática. Lentamente os membros, devido à idade, foram falecendo. Fumiko, que publica seus versos em três periódicos japoneses e dois paulistas, considera que os mais jovens não se interessam pelo haikai escrito em japonês. Mesmo não querendo que a tradição se acabe, admite que há poucas pessoas que ainda mantém a escrita viva: Enquanto eu estiver viva, o haikai não acaba.





