São Paulo, 20 (AE) - Foi em 13 de março de 1996, há pouco mais de quatro anos. Naquele dia morreu em Varsóvia, de enfarte, o cineasta polonês Krzysztof Kieslowski. Um dos grandes
um dos maiores do cinema nas últimas décadas. O público brasileiro, por meio da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, foi dos primeiros a reconhecer o gênio de Kieslowski. Seus fãs gostarão de saber que a trilogia das cores, culminação do estilo e do pensamento do autor, é a grande atração deste mês em DVD.
O lançamento é da Versátil, que, como sempre, faz um tratamento primoroso do material. "A Liberdade É Azul" chegou na semana passada ao mercado, "A Igualdade É Branca" chegou hoje e "A Fraternidade É Vermelha" chegará na segunda-feira. Todos os discos com seleção de cenas, filmografia do diretor e dos atores e uma entrevista que o crítico Rubens Ewald Filho fez com o grande artista. "A Fraternidade", além de todas essas atrações, tem um extra - uma entrevista com Irne Jacob.
As mulheres de Kieslowski: Juliette Binoche em "A Liberdade É Azul", Julie Delpy em "A Igualdade É Branca" e Irne em "A Fraternidade É Vermelha". São todas maravilhosas, Juliette e Irne, muito especialmente, são geniais. Juliette declarou , no Festival de Veneza, quando foi premiada por seu trabalho com o diretor, que Kieslowski havia conseguido retirar dela coisas que a surpreenderam. Ela foi a primeira a maravilhar-se com a intensidade de sua interpretação. Kieslowski levou-a muito além do que ela se julgava capaz.
Três cores - azul, branco e vermelho. As cores da bandeira francesa. Kieslowski, que sempre gostou dos projetos cíclicos (é dele o "Decálogo", atualização dramática dos Dez Mandamentos), quis fazer esses filmes para interrogar-se sobre a permanência dos ideais republicanos na vida moderna.
"A Liberdade É Azul" talvez seja, isoladamente, a obra-prima de Kieslowski. Um filme sublime, que procura ir além das imagens num movimento para captar e expressar na tela a anima - a alma. É a história de uma mulher que perde o marido e a filha num acidente. O marido era compositor, criava uma sinfonia para celebrar a união européia. Desesperada, Julie (é o nome da personagem) corta todos os laços com o passado. Vende a casa, destrói a partitura da sinfonia, vai viver na rua em busca de uma liberdade radical - e impossível. É a idéia de Kieslowski. Julie vai retomar seus laços com a vida, vai compreender que a abertura para o mundo significa impossibilidade da liberdade total. Relacionar-se com os outros (o mundo) significa aceitar restrições.
"A Igualdade É Branca" conta a história de um polonês que vive em Paris, casado com uma francesa. Ela arrasta o marido ao tribunal. Pede a anulação do casamento, sob a alegação de que a união não foi consumada. O marido tenta defender-se, mas não consegue fazer-se entender, pois não fala francês. Por causa disso, é tratado como desigual. Ele volta à Polônia, mete-se em negócios excusos, enriquece e parte para a vingança.
Para vingar-se, ele precisa colocar-se numa situação não apenas de igualdade - tem de ser superior à mulher. O filme fica mais complexo, pois Kieslowski vai fundo nas relações entre homens e mulheres. Mostra que a igualdade é impossível, pela própria tensão entre os sexos. Marido e mulher vivem e digladiam-se numa situação competitiva, em que há sempre vencedores e vencidos. A igualdade é uma utopia, é a tese do diretor nesse filme.
Todos os filmes da trilogia são de tese, expõem o pensamento de um intelectual que usa o cinema para pensar o homem no mundo. "A Fraternidade É Vermelha" une Camus e o acaso. Irne Jacob faz a modelo e estudante que atropela um cão. Depois de socorrê-lo, trata de devolvê-lo ao dono. Entra em cena o personagem de Jean-Louis Trintignant, um juiz aposentado que tem como hobby escutar as conversas telefônicas da vizinhança. O juiz parece um personagem de Camus, mais especificamente, o juiz-penitente de A Queda".
É um homem que escolheu viver à margem. A mulher vai reconduzi-lo ao convívio humano, mostrando que a solidariedade, mais do que possível, é necessária. Dito assim, parece terapêutico, construtivo, mas também meio babaca, um filme de auto-ajuda. Nada a ver com Kieslowski. O voyeurismo do juiz é seu primeiro movimento no rumo da fraternidade. Ele não consegue viver sozinho, precisa dos outros, mesmo que seja bisbilhotando suas conversas. A fraternidade, segundo Kieslowski, nasce da impossibilidade da solidão. O homem não nasceu para ser solitário.
Os três filmes formam um bloco de notável coerência. Há elos profundos entre eles. Juliette Binoche aparece no tribunal, na abertura de "A Igualdade É Branca". Mas há mais. As peças da trilogia encaixam-se no desfecho, quando uma tragédia une as personagens dos três filmes. São obras que estão entre as mais notáveis produzidas pelo cinema nos anos 90. Serviço - A Liberdade É Azul (Bleu). A Igualdade É Branca (Blanc). A Fraternidade É Vermelha (Rouge). Todos de Krzysztof Kieslowski, distribuídos pela Versátil. À venda na 2001, na Fnac
no Carrefour e na Livraria Saraiva. R$ 33

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