Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Em obra póstuma lançada pela Martins Fontes, J. R. R. Tolkien conta a origem do universo fantástico criado para o lendário romance ‘‘O Senhor dos Anéis’’
Quando morreu em 1973, o escritor inglês J. R. R. Tolkien deixou vários textos inéditos. Coube ao filho Christopher a tarefa de organizar alguns desses textos para publicação. Em sua tarefa, encontrou histórias em velhos cadernos, escritas a lápis. Eram anotações literárias que remontavam a 1917, época em que Tolkien começou a esboçar a mitologia fantástica que aplicaria em ‘‘O Senhor dos Anéis’’, sua obra máxima.
Christopher reuniu cinco desses escritos na coletânea ‘‘O Silmarillion’’. Publicada em 1977, quatro anos após a morte de Tolkien, a obra acaba de ganhar sua edição brasileira pela Editora Martins Fontes. O volume compreende cinco fragmentos narrativos, ‘‘Ainulindalu’’ (A música dos Ainur), ‘‘Valaquenta’’ (Relato dos Valar), ‘‘Quenta Silmarillion’’ (A história das Silmarils), ‘‘Akallabêth’’ (A Queda de Númenor) e ‘‘Dos Anéis de Poder e da Terceira Era’’. São histórias que remetem a um mesmo universo.
Os relatos de ‘‘O Silmarillion’’ não são ambientados na mesma época das aventuras narradas em ‘‘O Senhor dos Anéis’’ e ‘‘O Robbit’’, que correspondem ao período do final da chamada Terceira Era. As lendas de ‘‘O Silmarillion’’ tratam da Primeira Era, época do nascimento do mundo e seus habitantes fantásticos, elfos, anões, orcs, magos, bem como o próprio homem.
As lendas da Primeira Era não possuem a mesma essência daquelas da Terceira Era. O mundo imaginário criado por Tolkien se movimenta em função de dois pólos, o bem e o mal. A diferença entre ‘‘O Silmarillion’’ e ‘‘O Senhor dos Anéis’’ reside na densidade mitológica do primeiro, enquanto o segundo é pautado pela aventura da ação.
A origem do universo fantástico de Tolkien (1892-1973) está em Eru (Ilúvatar), sagrado senhor do universo. Em seus pensamentos gerou seres chamados Aiur, e os ensinou a música universal para que cantassem em seu deleite. Mas com o tempo, um dos Aiur chamado Melkor, viu nascer em seu coração a necessidade de inserir novos motivos na harmonia das músicas. Essa vontade de utilizar a própria imaginação na estrutura da música universal desagradou ao criador, que acabou repreendendo-o.
Melkor, que passa a ser chamado de Morgoth, assume os territórios negros do mundo, torna-se o Senhor do Escuro, o arquétipo do mal. Tentando assumir o poder sobre todos os habitantes da Terra Média, Morgoth inicia uma longa guerra contra os elfos, representantes do bem. Com suas artimanhas sujas, Morgoth consegue roubar as pedras luminosas chamadas Silmarils, detentoras de um poder gigantesco. Durante séculos e milênios, sábios elfos lutam contra o exército do mal para recuperar as pedras lapidadas para o bem.
A mitologia criada por Tolkien encontra eco na mitologia ocidental da origem do mundo. Assim como Morgoth é uma anjo caído, como Lúcifer, os elfos são os profetas que velam pela restauração das forças do bem. Na narrativa de ‘‘Akallabêth’’, por exemplo, em que o escritor descreve o desenvolvimento dos homens, ocorre correlação semelhante. Num determinado momento os reis da nação dos Númenor, exímios navegadores, começam a questionar por que os homens são mortais e os elfos imortais. Seduzidos pela idéia da imortalidade, começam a cultuar Morgoth, que antes combatiam, na esperança de obter ajuda para alcançarem a eternidade. Imaginando que apenas se deslocando para a terra dos elfos conquistariam seus objetivos, ainda que tal procedimento fosse proibido. Empreendem uma longa aventura marítima em busca da eternidade que termina em tragédia.
Os textos que compõem ‘‘O Silmarillion’’, verdadeiros turbilhões mitológicos, são inundados por grande quantidade de nomes próprios que exigem atenção redobrada para o entendimento da narrativa. No final do livro há um glossário, nada mais nada menos que 50 páginas, com verbetes criados por Tolkien para nomear seres, lugares e objetos. Nesse sentido talvez a obra tenha maior aproveitamento pelo leitor que já conhece os caminhos imaginativos traçados pelo autor em outras narrativas mais lineares, como ‘‘O Senhor dos Anéis’’ em seus três volumes. Mas nada impede que o leitor que nunca tenha entrado em contato com o universo fantástico de Tolkien mergulhe no brilho dos Silmarils e navegue pelas imprevisíveis águas da imaginação.
O Silmarillion – De J. R. R. Tolkien, Editora Martins Fontes, organizado por Christopher Tolkien, tradução de Waldéa Barcellos, 467 páginas, R$ 37,50.

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