A gaveta do escritor
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Imagine um país onde os políticos são pessoas totalmente dedicadas ao bem da população. Um país que possui uma lei exemplar onde os políticos podem exercer um único mandato. Uma lei que obriga os governantes, após cumprirem seus mandatos, morrerem.
Muita gente deve ter imaginado viver num país desse tipo, mas foi Italo Calvino (1923 - 1985) que colocou a irônica idéia no papel. Ela aparece num dos contos de ''Um General na Biblioteca'', volume que reúne textos inéditos do escritor italiano.
''A Decapitação dos Chefes'', escrito em 1969, deveria ser um romance, mas ficou apenas na forma de conto. Calvino descreve uma sociedade onde todos os dirigentes políticos, após cumprirem seus mandatos públicos, são decapitados em praça pública. Todo o ritual está baseado na idéia que os dirigentes florescem, maduram e depois apodrecem. Então, para evitar o apodrecimento, está regulamentada a morte. Todo político, ao pretender qualquer posto, sabe que mais cedo ou mais tarde será decapitado. Uma espécie de higiene no poder público.
Organizado por Esther Calvino, viúva do escritor, ''Um General na Biblioteca'' reúne 32 contos escritos por Italo entre 1943, quando tinha apenas 20 anos de idade, e 1984, um ano antes de sua morte. Parte dos textos foi recolhida em manuscritos inéditos guardados no fundo da gaveta. Outra parte foi publicada apenas em revistas especializadas, escritos sob encomenda.
Publicado postumamente, a obra foi lançada originalmente no Brasil em 2001 e agora acaba de ganhar uma nova edição de bolso pela editora Companhia das Letras. Os contos de ''Um General na Biblioteca'' nada devem a outras obras Calvino. Pode-se perceber que, mesmo nos textos escondidos na gaveta, ou escritos por encomenda, Calvino preservava o sabor de sua literatura. A ironia elegante, o humor sutil e a leveza da fantasia estão presentes na maioria dos contos. Sempre com a linguagem sendo trabalhada de acordo com o conteúdo da narrativa.
Entre as curiosidades está ''A Glaciação'', narrativa que Calvino escreveu a partir do pedido de uma fábrica de uísque. No texto, o escritor extrapola o tema e faz uma divagação de um homem desastrado sobre a dificuldade em tirar gelo das forminhas do congelador enquanto uma linda mulher espera com um copo na mão.
Outra curiosidade é ''O Incêndio da Casa Abominável''. Encomendado por uma empresa de informática, Calvino criou um texto procurando mostrar como seria possível alguém escrever um conto em parceria com o computador. Isso em 1973, quando os computadores eram mastodontes primatas. O texto revela o embate entre a máquina e o homem num confronto neurótico. Como se as duas inteligências, a artificial e a humana, ao contrário de se unirem, competissem entre si.
''O General na Biblioteca'' revela um Calvino muito mais irônico com as questões políticas do que em outras obras. Talvez tenha optado deixar na gaveta textos que realizam uma abordagem literária mais social. Contos como ''Montezuma'', ''Henry Ford'' e ''O Homem de Neandertal'', por exemplo, utilizam entrevistas ficcionais para discutir assuntos relacionados ao poder, a eterna rusga entre opressores e oprimidos.
O autor também realiza caminho inverso em outros textos, como o conto que dá título ao livro. Nele, o poder é ridicularizado para que a literatura ocupe espaços mais amplos. Um espaço que confere sentido maior à existência dos homens.
Serviço
Um General na Biblioteca
Autor - Italo Calvino
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Rosa Freire d'Aguiar
Quanto - R$ 21,50 (442 págs.)
Havia um país em que tudo era proibido.
Ora, como a única coisa não proibida era o jogo de bilharda, os súditos se reuniam em certos campos que ficavam atrás da aldeia e ali, jogando bilharda, passavam o dia.
E como as proibições tinham vindo paulatinamente, sempre por motivos justificados, não havia ninguém que pudesse reclamar ou que não soubesse se adaptar.
Passaram-se os anos. Um dia, os condestáveis viram que não havia mais razão para que tudo fosse proibido e enviaram mensageiros para avisar os súditos que podiam fazer o que quisessem.
Os mensageiros foram àqueles lugares onde os súditos costumavam se reunir.
- Saibam - anunciaram - que nada mais é proibido.
Eles continuaram a jogar bilharda.
- Entenderam? - os mensageiros insistiram. - Vocês estão livres para fazer o que quiserem.
- Muito bem - responderam os súditos. - Nós jogaremos bilharda.
Os mensageiros se empenharam em recordar-lhes quantas ocupações belas e úteis havia, às quais eles tinham se dedicado no passado e poderiam agora novamente se dedicar. Mas eles não prestaram atenção e continuaram a jogar, uma batida atrás de outra, sem nem mesmo tomar fôlego.
(Fragmento do conto ''Quem se Contenta'' que integra ''Um General na Biblioteca'' de Italo Calvino)


