É um privilégio que o repórter seja o primeiro a iniciar a série de entrevistas de David Fincher. Ele está em Londres, onde a distribuidora Sony reuniu jornalistas de todo o mundo para o lançamento internacional de ''Millennium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres''. O filme de Fincher inicia a série de adaptações que Hollywood pretende fazer dos livros do sueco Stieg Larsson. Há outra série nórdica baseada nos mesmos livros e é no mínimo curioso que justamente hoje, quando estreia Millennium, a TV paga (o Cinemax, às 22 horas) esteja exibindo ''A Menina Que Brincava com Fogo'', a segunda parte da trilogia produzida na Suécia.
Fincher estava particularmente satisfeito com sua intérprete de Lisbeth Selander, a própria garota com a tatuagem do dragão. Mas não foi fácil bancar Rooney Mara. ''O estúdio não estava convencido de que ela pudesse carregar o papel. Eu nunca tive dúvidas. Tivemos de provar a eles.'' Rooney está indicada para concorrer ao Oscar de melhor atriz. Embora determinada - sua personagem dava o fora em Mark Zuckerberg em ''A Rede Social'' -, ela parecia fisicamente frágil no longa anterior de Fincher. Rooney ressurge tatuada, durona e com frequência nua em ''Os Homens Que Não Amavam as Mulheres''. ''É uma garota como não se vê na produção A de Hollywood'', ele avalia. Você pode comparar sua performance com a de Noomi Rapace no filme que a TV mostra à noite.
Mais uma história de serial killer? Após ''Seven - Os Sete Pecados Capitais'' e ''Zodíaco'', Fincher ainda não se cansou? ''O filme tem serial killer, mas não é sobre serial killer, e vai nisso uma diferença. Se fosse só outra história de caçada humana, estaria fora.''
O que lhe interessou no livro - e na adaptação de Steve Zaillian - foram os relacionamentos, ou o relacionamento entre o jornalista Michael Blomkvist e a investigadora Lisbeth Selander. Ele, interpretado por Daniel Craig, é um homem maduro, um jornalista responsável. Ela é uma garota. Sofreu abuso sexual, é bi. Maior que a diferença de idades, é a social. ''São personagens que nunca deveriam ter se cruzado, mas que se encontram e mudam as respectivas vidas'', ele explica.
O que motivou Fincher a fazer o filme foi a última cena do roteiro de Steve Zaillian - que você vai ter de ver o filme para saber como é. ''Há ali uma maturidade muito grande de ambas as partes. E, para ela, é uma superação, o momento de ficar adulta.'' O repórter arrisca o tema de ''Millennium'' - a restauração da confiança. ''Sim, é disso que se trata. A confiança já estava no centro de A Rede Social.'' A luz é magnífica e expressa outro tema do filme, o embate entre o sagrado e o profano, que também está em ''Luz Silenciosa'', de Carlos Reygadas (e ''A Árvore da Vida'', de Terrence Malick). ''A luz realmente possui essa dimensão metafórica, mas no começo era só a luz do inverno na Suécia, que também existe em certos filmes de (Ingmar) Bergman.''
E a trilha? ''Fiz muito videoclipe. Não queria um filme clipado, mas no qual a música tem íntima relação com a imagem. Não há uma música que não tenha sido pensada em relação com a trama. Em alguns casos, o timing e o mood (o clima) vêm da música.'' A direção de arte é fundamental. Um personagem decisivo habita uma casa de vidro, transparente. Vai nisso uma crítica ao mundo atual? ''Uma falsa transparência? Com certeza. O podre, a doença social, está escondido no basement (o porão). Se você quiser dizer que é uma representação do mundo, a responsabilidade é sua'', diz o diretor, rindo.
Fincher pretende fazer Millennium 2, 3? ''Fazer filmes é um processo demorado. Não gostaria de ficar preso ao projeto, mas de acompanhá-lo. Espero que o público também se interesse em seguir Michael e Lisbeth.''

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