A fúria do destino
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Após vários anos longe da literatura brasileira, Fausto Wolff entrou com os dois pés pela porta da frente da ficção. Em 1996 publicou À Mão Esquerda, narrativa de vitalidade que acabou levando o Prêmio Jabuti daquele ano na categoria romance. Na sequência, seus antigos livros ganharam novas edições, como O Acrobata Pede Desculpas e Cai e O Homem e seu Algoz, e seu nome voltou a frequentar os cadernos culturais da mídia.
Aos 60 anos de idade, Fausto Wolff, um gaúcho cosmopolita, acaba de publicar um novo romance: O Lobo Atrás do Espelho. Lançado pela Editora Bertrand Brasil, a obra possui todas as condições de reforçar as características de sua literatura que reflete a condição individual e coletiva do homem nos teares da História.
O Lobo Atrás do Espelho apresenta duas histórias paralelas, aparentemente distintas. No final do livro elas se encontram elucidando uma terceira narrativa, o processo corrosivo do tempo. Uma delas narra as solitárias ações de um terrorista, um matador profissional que recebe ordens e dinheiro de uma organização secreta para eliminar empresários e políticos corruptos.
A outra história conta a trajetória de uma família de origem cigana atravessando três gerações. Tudo começa com o jovem e rico Jamal roubando a bela Parthênia, um princesa cigana. Fugindo da Europa, transfere-se para o Brasil. Compra uma fazenda no Rio Grande do Sul para se dedicar à criação de cavalos. Com ódio nos olhos a jovem Parthênia roga uma profecia: o filho que nascerá daquela união matará o pai. Com o passar do tempo passa a amar o marido mas a profecia permanece latente, como outras várias profecias que cairão sobre a família.
De Jamal e Parthênia nascerá Cosmo. De Jamal e Eva, a mulher do capataz da fazenda, nascerá Abel. Os irmão Cosmo e Abel, colocarão em prática um dos sonhos do pai, transformar a fazenda numa comunidade socialista, a primeira do país. De Cosmo e uma outra princesa cigana, Helena, nascerá Caio, e Antônio (alter ego de Fausto Wolff), a terceira geração que provará o sabor da tragédia completa.
Fausto Wolff criou um romance carregado de nuances psicológicas representando mapas de personalidade/personagens, sejam eles principais ou secundários. Apesar da força da ação de cada um, o destino, a vontade dos deuses, é quem dá as ordens. O autor incorpora elementos da tragédia grega nas contradições e dúvidas da existência do homem contemporâneo.
O Lobo Atrás do Espelho traz como subtítulo O Romance do Século. Uma tremenda pretensão se for entendido como melhor romance do século ou o grande romance do século. O que parece não ser o caso, pois a história narrada tem início nos primeiros meses de 1900 e se encerra na virada do
ano-novo de 2000. Nesse sentido, seria um romance que sintetiza o espírito do século 20. O que também não seria o caso, pois o complexo espírito do século 20 é tão amplo e contraditório que não se resume na ascensão e queda das utopias, ou na dor do ser humano em se constituir como ser justo. Mas, assim como o título de um romance não é o romance e o subtítulo muito menos, a história carregada de conhecimento criada por Wolff é muito maior e é ela que merece atenção.
Nascido em 1940, em Santo Ângelo, Rio Grande do Sul, mesma região que ambienta O Lobo Através do Espelho, Fausto Wolff (pseudônimo) já trabalhou em dezenas de jornais e revistas do país. Um dos fundadores do Pasquim, permaneceu longos anos na Europa durante a ditadura militar brasileira. Atualmente é um dos editores da revista Bundas.
O Lobo Atrás do Espelho O Romance do Século De Fausto Wolff, Editora Bertand Brasil, 368 páginas, R$ 34,00.





