Transportar o universo literário da escritora paulista Hilda Hilst para o palco não é tarefa fácil. Os labirintos tecidos por ela, tanto na linguagem como no conteúdo, exigem uma abordagem cuidadosa para que o sentido não perca sua intensidade.
O trabalho da Companhia Teatral do Movimento, do Rio de Janeiro, apresentado no Filo 2003, no sábado e domingo, é uma boa surpresa nessa direção. O espetáculo ''Fluxo'', baseado em ''Fluxo-Floema'', obra de Hilda Hilst escrita em 70, consegue revelar a força do teatro, em sua magia temporal, soldada ao universo perturbador da escritora.
''Fluxo'' reflete sobre a construção da obra de arte e, ao mesmo tempo, a posição do artista diante dessa construção. A história narrada, em sua relativa complexidade, acontece no interior do narrador que se divide em várias pessoas. Personagens que oferecem ao narrador uma compreensão mais abrangente de sua percepção, de seus delírios, de sua própria existência.
A montagem fundamentada no trabalho de ator, com direção de Ana Kfouri, consegue apresentar a profundidade do texto e, paralelamente, oferecer pontos de diversão ao espectador - que, relaxado, tem a oportunidade de entrar sem reservas na complexidade interior do conteúdo narrado.
''Fluxo'' apresenta o drama do criador diante da missão de retirar das próprias entranhas sua criação, e não de lugares externos impostos artificialmente. Essa missão, o coloca entre a sinceridade e a falsidade. E ele se vê diante de uma única opção: ser verdadeiro a qualquer preço, pois essa é sua posição simbólica diante do mundo e diante da vida.
O anão, personagem menos humano da montagem, é justamente aquele que oferece estímulos à humanidade adormecida nos homens. Coloca-os em seu devido lugar, pastando no nada e sonhando com um campo de flores sob um céu grandioso. Parece dizer que só o sentido torna o homem possível. E que esse sentido, na maioria das vezes, está fora do alcance das mãos.
Em ''Fluxo'', não existe vida sem a força da fúria interna. E o que rege a literatura e outras artes - ou pelo menos deveria reger - seria exatamente a fúria em colocar o mundo interno para fora, torná-lo visível a outras pessoas. Assim, uma possibilidade maior de entendimento da vida se tornaria visível, seja através da dor ou do amor.
Após assistir ''Fluxo'', é inevitável admitir que morremos como porcos degolados, como bois despelados e insetos esmagados. E esse inevitável fato, deveria gerar uma força descomunal, uma força que nos levaria a agarrar a vida com unhas e dentes, olhá-la nos olhos, e fazer o que bem entender.

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