A fúria da realidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de agosto de 2002
Marcos Losnak<BR>Especial para a Folha 
Há tempos a violência urbana abriu a porta e entrou na vida dos brasileiros sem limpar os pés no capacho. Um drama que passou a desenhar novo contexto social, nervoso e de olhos injetados. Um rascunho repleto de borrões, inundado de miséria e algemado pela desigualdade econômica.
A literatura brasileira, como não poderia deixar de ser, vem trabalhando com o tema em dois movimentos. De um lado os escritores que sobem os morros e visitam favelas que concentram a pólvora da violência para retratar essa incômoda paisagem. De outro, escritores que descem os morros abandonando as favelas para reproduzir esse universo barra-pesada, parte do cotidiano de milhares de pessoas. Grande parte delas, pessoas de bem.
Duas obras publicadas recentemente ilustram adequadamente esse movimento de mão dupla. Subindo o morro estaria Inferno (2000), romance de Patrícia Melo. Descendo, estaria Cidade de Deus (1997), de Paulo Lins. A segunda merece maior destaque porque foi escrita por alguém que viveu duas décadas em Cidade de Deus, a maior e mais antiga favela urbanizada do Rio de Janeiro.
Todo baseado em fatos reais e pesquisas antropológicas sobre violência e criminalidade, Cidade de Deus está ganhando sua segunda edição revista pelo autor, através da Companhia das Letras. O lançamento acompanha a estréia, na semana passada, do filme homônimo de Fernando Meirelles baseado do romance de Paulo Lins.
Cidade de Deus é um retrato do cotidiano do crime visto do lado de dentro da favela, do lado interno da miséria. Sem a pesada mão do juízo moral. Assaltantes, assassinos, traficantes e policiais expondo a violência como ela é, de modo duro e pontiagudo. A narrativa revela as transformações da criminalidade no decorrer dos anos do aprendizado do pequeno assaltante ao poder do chefe do tráfico de drogas.
A gratuidade da violência retratada pode até causar um certo mal-estar em estômagos mais sensíveis. Mas uma coisa fica clara: o grau de violência de um bandido é totalmente vinculado ao poder que ele quer exercer. Em outras palavras, marginal bonzinho não é respeitado, não é temido e, assim, não escala os degraus do poder. Uma espécie de prolongamento das artimanhas do poder econômico e político institucionalizado.
Outra imagem reconstituída por Paulo Lins está no motivo, na origem do alto grau de violência. A cena é simples e exposta pelos próprios bandidos: eles também querem o que as classes sociais mais favorecidas têm acesso e a mídia eleva nas alturas. Trabalhando de maneira honesta e pacífica, nunca poderão colocar as mãos nessas coisas. Dessa maneira, a saída imediata é conseguir através da força, do terror, numa espécie de divisão violenta de renda.
Um dos méritos literários da obra é reproduzir toda a linguagem oral dos personagens que um dia foram de carne-e-osso, a grande maioria negros e mulatos. As gírias, os erros de português e o ritmo das frases se alastram por todos os diálogos do romance, reconstituindo um cotidiano em ebulição.
Ao leitor resta não esquecer, durante toda a leitura, que está presenciando uma realidade despida de sedas. Uma realidade exposta como retalhos de carne na vitrine de um açougue social onde quem pode mais, chora menos. Ou num matadouro sem inspeção federal onde a vida é refém de um escuro beco sem saída. E mesmo assim, a vida segue em frente gritando dentro de um ecossistema onde quem está dentro quer sair e quem está fora não deseja entrar.
Calaram-se, porém Martelo lembrava das balas que já haviam passado zumbindo em seus ouvidos, das vezes em que quase dançara durante as fugas. Realmente, tinha medo de amanhecer com a boca cheia de formiga, mas virar otário na construção civil, jamais. Essa onda de comer de marmita, pegar ônibus lotado pra ser tratado que nem cachorro pelo patrão, não, isso não. Recordou-se de quando trabalhara nas construções da Barra da Tijuca. O engenheiro chegava sempre depois do meio-dia com o maior mulherão no carro e nem um bom-dia dava para a peãozada. Saía dando esporro em todo mundo só para crescer na frente da mulher, e o babaca do encarregado, só porque arrumara uma merrequinha a mais, vivia puxando o saco do maldito. Seria bicho-solto mesmo. Nunca marcaria zero hora pros samangos. Haveria de estourar a boa pra poder comprar uma chácara no interior, viver o resto da vida criando galinha numa boa.
(Fragmento de Cidade de Deus)


