A fugacidade e os corpos nus
Rogério Ghomes e Fernanda
Magalhães: duas mostras
da Bienal de Fotografia
que valem a pena ser vistas
Foto de Rogério GhomesZeca Corrêa Leite
O homem prisioneiro do seu tempo, da sua pressa, de destinos que não chegam; das formas do corpo, dos desenhos idealizados, da textura da pele. A beleza do físico e a velocidade do tempo, duas linguagens que basicamente falam da vida, da ilusão e da alma, estão em exposições distintas de dois fotógrafos paranaenses incluídos na 2ª Bienal Internacional de Fotografia, em Curitiba: Rogério Ghomes e Fernanda Magalhães.
Preferencial, a série que Rogério Ghomes leva ao público pela primeira vez, pode ser vista até domingo no Espaço de Arte Ybakatu. São 20 fotos coloridas e em preto-e-branco, produzidas nas estradas, que foram colocadas sob vidros jateados. Os vidros trazem palavras vazadas próprias do universo dos caminhoneiros; através delas, que representam convenções e ordens do trânsito, é que se consegue ver a paisagem de asfaltos e acostamentos.
Foto de Fernanda MagalhãesA Mulher Gorda Nua na Fotografia, da londrinense Fernanda Magalhães, está na Galeria Schneider, no Largo da Ordem. São 13 registros, escolhidos de uma série de 21, que não desnudam exatamente o corpo gordo de uma mulher. Aqui o discurso vai mais além - é o encontro da feminilidade consigo mesma, tentando livrar-se das toneladas de preconceito e culpa. Por que a obesidade não pode ter sua plenitude?
Rogério Ghomes batizou com um termo característico - e dúbio - a sua exposição. Preferencial fala da vida das pessoas, dos destinos, os perigos que rondam a cada curva, os declives, as bifurcações que vão dar em paragens desconhecidas. Tem a esquerda e a direita, as neblinas, velocidades controladas, ultrapassagens.
Há cerca de um ano e meio o fotógrafo vinha dedicando-se a este trabalho, maturando e lapidando a idéia. Sua estréia na Bienal de Fotografia de Curitiba representou o fechamento do conceito; isso aconteceu agora em julho e fez com que Ghomes fosse o último profissional a ser convidado para o evento. Daqui para a frente o destino da exposição é viajar, e de seu autor buscar um novo projeto.
No momento ele quer se deliciar com o descanso pela obra concluída. A resposta à exposição está chegando generosa: Pela primeira vez estou tendo um retorno imediato; as imagens tocam em algum lugar nas pessoas, conta. Ele acredita que talvez seja porque segurou-se um pouco na paixão. Assim dá espaço para que outros ampliem as suas próprias emoções e histórias. Lembra-se da mostra anterior, feita de fronhas e travesseiros. Era mais passional, apesar do repouso, do recolhimento.
Isso não quer dizer, de modo nenhum, que o coração extravasado deixou a cena. As platéias românticas que esperem para beber daquilo que virá daqui a uns dois anos - a exposição E a Floresta Pegou Fogo. Nada ligado à destruição e queimadas assassinas, muito pelo contrário. O fotógrafo já está antenado para não deixar passar em branco as árvores que trazem juras de amor.
Iniciais de nomes de amantes, flechas ferindo corações como tatuagens nos corpos vegetais. São esses rompantes de almas em labaredas que Rogério Ghomes quer registrar, para finalmente colocar atrás de um tecido enorme, que terá impresso o fogo: à medida que o vento balouça a gase, ardem as chamas. São amores que talvez nem existam mais.





