A fuga da tempestade
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Depois de levar quatro tiros e passar dias em coma na UTI, o que o dramaturgo londrinense Mário Bortolotto mais quer é trabalhar. Ele estreia uma peça no mês que vem e se prepara para lançar um livro de poesias, outro de contos e um terceiro com suas peças preferidas
Na madruga de 05 de setembro do ano passado, o escritor e dramaturgo londrinense Mário Bortolotto foi abatido por uma violenta tempestade. Ao reagir a uma tentativa de assalto no Teatro Parlapatões, situado na Praça Roosevelt, centro de São Paulo, foi atingido por quatro tiros. Um deles no coração.
Após dias em coma, semanas na UTI em estado grave e uma série de cirurgias, Bortolotto saiu cambaleando da tempestade. Uma espécie de milagre segundo os médicos que o atenderam durante o período em que permaneceu hospitalizado.
Apesar do corpo abalado, ressurgiu da tempestade com uma lucidez sólida e clara. Como se tivesse ganhado uma ''sobrevida''. Como se tivesse faturado na loteria o bilhete da serenidade. Após o temporal, tentando superar as sequelas (um braço imobilizado e a falta de movimento dos dedos da mão esquerda), Mário começa a agarrar o trabalho com unhas e dentes. Duas peças, três livros, um filme e vários shows estão previstos para os próximos meses. A seguir Bortolotto, radicado em São Paulo, fala de seus projetos e da percepção que tirou do incidente.
A última vez que esteve em Londrina (em setembro de 2009, no Londrix) você e sua banda Saco de Ratos fizeram um show de quatro horas e meia. Você já está recuperado para outras loucuras desse tipo?
Não tenho certeza. A prova de fogo serão os primeiros shows que vou fazer com a banda a partir do final de fevereiro. Mas acho que pelos menos duas horas dá pra aguentar.
A estréia de sua nova montagem, ''Música Para Ninar Dinossauros'', acontece no próximo dia 18 de março no Festival de Teatro de Curitiba. Está tudo pronto?
Não tem nada pronto. Nem o texto está pronto. Com essa história do incidente comigo, estou com uma das mãos inutilizada, espero que temporariamente, e estou escrevendo com um dedão só, catando milho.
Como é a peça?
Mostra três caras de meia idade (Lourenço Mutarelli, Paulo de Tharso e eu) que são amigos desde sempre e que nasceram nos anos 60. São caras de uma geração que não participou efetivamente de nada. Veja bem, eles nasceram nos anos 60, isto é, não viveram efetivamente os anos 60. Em 70, eles estavam colecionando figurinhas ''Brasil Pátria Amada'', tentando preencher o rosto do Médici. Quando eles tomaram pé da situação, já era tarde demais. É a geração que carrega o estigma de ter chegado atrasada. Os meus personagens, especificamente, têm problemas em se relacionar, são caras que não conseguiram casar, constituir família. Eles ficaram perdidos e preenchem suas vidas com drogas, bebida e sexo com prostitutas. A peça é de uma monumental solidão, para dizer o mínimo.''
De que solidão você está falando especificamente?
Aquela solidão que não sai de você mesmo se estiver cercado de pessoas. Aquela que não te abandona mesmo se você estiver dentro de uma mulher.
Parece que a temática de 'Música Para Ninar Dinossauros' possui relação a outras peças de sua autoria, como 'Diário das Crianças do Velho Quarteirão', de 1998. Existe algum paralelo?
Todas as minhas peças têm relações umas com as outras. Acho que elas são todas de um imenso painel que fala basicamente dos mesmos assuntos, ou seja: solidão, amizade, amor e perda. Meus personagens estão todos irremediavelmente condenados à derrota, um pouco assim como eu.
Alguns livros estão previstos para serem lançados no decorrer do ano. Quais são eles e quando devem sair?
Resposta - O livro de poesia é o 'Um Lugar Legal Pra Morrer' e reúne a minha obra poética que escrevi desde o 'Para os Inocentes Que Ficaram em Casa', lançado em 1997. É legal esclarecer que este título já tava escolhido muito antes do incidente, quer dizer, não tem nada a ver com o que aconteceu comigo. Talvez eu seja obcecado com a idéia, o que eu posso fazer? O de contos é o 'DJ - Canções Pra Tocar no Inferno', que também reúne tudo o que saiu por aí em coletâneas do gênero. E vai sair um livro com minhas peças preferidas.
Depois de toda a tempestade, do incidente e sua recuperação, o que ficou?
Muita vontade de trabalhar, mas também de viver com prazer e serenidade. Meu trabalho sempre me trouxe muito prazer e nos últimos anos eu não estava dando a real importância a isso.
Palavras como 'destino' ou 'milagre' ganharam novos significados?
'Milagre' foi sem dúvida o que aconteceu comigo. Ainda penso que na verdade não estou aqui respondendo essas perguntas e que o meu espírito está vagando por aí bebendo um bourbon na Praça Roosevelt. Quanto à 'destino', vou esperar bater lá em cima definitivamente para entender direito qual é.
E qual seria a maneira mais honesta de um homem se colocar diante dos milagres?
Entender que não somos merecedores de nenhum milagre, mas se fomos contemplados, vamos tentar fazer jus. Eu nunca fui de ganhar nada. Nem bingo, nem rifa, porra nenhuma, mas ganhei a oportunidade de continuar vivendo. Então tá. O que é mesmo que eu quero de mim?


