Veneza - No espaço cinéfilo-geográfico bem definido do Festival de Veneza, olhos e ouvidos só para os filmes. Nos bastidores (leia-se grandes hotéis e ''villas'' ao redor), porém, muita movimentação em torno da mundanidade que agita noites e festas no Lido, algumas chiques, outras nem tanto ou quase nada. Algumas restritas a abonadas personalidades - as galas beneficentes da Cruz Vermelha (para matar a fome africana) e a campanha contra a Aids, com ingresso mínimo a U$ 1.500, Shirley Bassey e Milla Jovovich como madrinhas -, outras para celebrar personalidades como Dino Risi e Michelangelo Antonioni, ou para comemorar a exibição de determinados filmes na mostra ou ainda para homenagear visitantes hollywoodianos. Há recepções menos votadas e mais concorridas, seja para experimentar o vinho do Piemonte ou da região do Vêneto, seja para badalação em torno de empresas do audiovisual como Telepiu ou RaiCinema ou Istituto Luce. As festas por aqui aumentaram, e todos os jornalistas encontram nas respectivas caixas postais um convite para participar de eventos, todos com a informação ''segue coquetel''. Mas por um capricho - maldição, juram alguns coleguinhas - dos deuses, até agora todos esses encontros têm coincidido com a estressante agenda de filmes e entrevistas coletivas e individuais, com escala obrigatória de pelo menos três horas diárias na sala de imprensa.
Ontem à noite a expectativa da crítica era toda para ''Dolls'', a esperada volta à Veneza do japonês Takeshi Kitano depois do Leão de Ouro em 1997 com ''Sonatine'' e da exibição de ''Brother'', concorrente em 2000. Além do próprio retrospecto altamente recomendável da filmografia de Kitano, a ausência até aqui de filmes com impactante perfil de destacado favoritismo contribui para criar um clima até certo ponto tenso antes de cada nova projeção. E à saída das salas, ninguém propriamente exultante. Por isso a recepção mais calorosa a um bom filme, sólido filme de Patrice Leconte, ''L'Homme du Train'' (O Homem do Trem), que retoma a fórmula e o protagonista de ''O Marido da Cabeleireira'', mas mudando o ângulo do imaginário.
A atmosfera não é muito diferente daquela de certos romances lentos e meditativos de Georges Simenon. Em local e tempo indeterminados, talvez hoje, quem sabe em algum lugar do interior da França, um homem desce do trem. É Milan, um gangster sentimental (o cantor pop Johnny Hallyday, surpreendente), com todo aquele jeito de personagem sem passado. Recebido com suspeitas por toda a cidade, encontra por acaso Manesquier (Jean Rochefort, magnífico como sempre), um melancólico ex-professor de francês com grave problema de saúde. Ninguém sabe, mas Milan chegou para roubar o banco local, enquanto Manesquier está para ser operado. O gangster sonha com chinelos e uma vida tranquila; o professor quis ser um aventureiro, um homem de ação. Entre os dois nasce casualmente uma amizade que leva o professor a hospedar o gangster em sua casa durante três dias, ao fim dos quais um e outro terão ações importantes e perigosas: um roubo de banco e uma cirurgia de coração, destinos muito parecidos. O desfecho dessa fábula sem contexto moral é discutível, mas não se nega a Leconte o virtuosismo nesta comédia dramática sobre a busca de identidade, aplaudida ao final com sincera empatia.
Como Veneza sempre reserva espaço para escândalos de ocasião, o polêmico Larry Clark (''Kids'' e ''Bully'') está de volta ao circuito veneziano com ''Ken Park'', outro retrato da América nauseante. Mas de algum modo o impacto parece agora antigo e repetitivo, com um círculo literalmente vicioso de orgias adolescentes, homicídios gratuitos e atos incestuosos. Esta crônica californiana da perversão suburbana chega com incômodo jeito de voyeurismo fetichista e vulgar. O filme deve ser visto no Brasil já em outubro, durante a 26 edição da Mostra Internacional de São Paulo. Pelo menos foi o que garantiu Leon Cakoff, diretor do evento.
Os italianos não se emendam, e cometeram novamente. ''Uma Viagem Chamada Amor'', de Michelle Plácido, apesar do preciosismo da produção, é outro integrante da ''squadra azzurra'' a ficar a meio caminho, depois de ''Velocidade Máxima''. O filme narra a ardente, conflitante, tempestuosa e trágica paixão entre a escritora feminista Sibilla Aleramo e o poeta Dino Campana, ambientada no início do século 20. Depois de uma primeira meia hora estimulante, ''Um Viaggio Chiamato Amore'' perde a direção e despenca para o caminho sem volta da histeria: nem paixão pela paixão, nem respeito pela literatura. Só vaias cruéis dos inconformados compatriotas.
Fora de concurso, o mais recente Clint Eastwood é um dos convidados especiais de Veneza-2002. Como sempre, o cowboy-detetive solitário mergulha nas águas turvas das tramas policiais com a conhecida habilidade, com aquele domínio que o transformou em um dos mais respeitáveis diretores de ação urbana. Embora sólido como um tronco de carvalho, Clint retoma em ''Blood Work'' o tema de ''Cowboys do Espaço'': a terceira idade - no caso debilitada por um transplante de coração - como elemento complicador da atividade de detetive. No caso, um ex-agente do FBI às voltas com um serial killer que tem fixação pelo jogo de gato e rato com o próprio personagem vivido pelo ator. Em resumo, um Clint de rédeas curtas, em paz com sua legião de admiradores.

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