Um projeto de dimensões continentais pretende pulverizar na América Latina a produção do teatro francês das últimas décadas. O Programa Tinta Fresca traz ao Brasil algumas das experiências de encenação e dramaturgia que redefiniram o panorama teatral francês. A organização do evento é da Associação Francesa para a Ação Artística – AFAA – e Embaixada Francesa no Brasil.
No 11º Festival de Teatro de Curitiba, que termina hoje, o adido cultural francês Jacques Peigné ressaltou que o Projeto Tinta Fresca tem a intenção de mostrar a diversidade de autores que tem uma reflexão sobre a sociedade. ‘‘Queremos mostrar o teatro como veículo sócio-político, além da preocupação estética’’, explica Peigné. Duas preocupações orientam a extensa temporada de março a novembro. A primeira preocupação recai sobre os poderes do teatro e em como redefinir o papel do teatro na sociedade atual.
A segunda questão se refere à confrontação entre ética e estética, fazendo emergir questões políticas, econômicas, científicas, sociais e religiosas. No pacote cultural constam espetáculos, textos, reflexões teóricas, vídeos e oficinas. A longa tradição francesa voltada para o teatro de pesquisa e investigação poderá ser conhecida com mais profundidade.
Peigné ressaltou a disponibilidade do ator brasileiro, por isso um programa extenso em várias cidades brasileiras. Os franceses devem deixar rastros em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Salvador, Belo Horizonte. Em Londrina, para o Filo 2002, ainda não está decidido se algum grupo pertencente a AFAA integrará a programação. Caso o Filo não tenha disponibilidade de trazer algum grupo, a Aliança Francesa local pretende promover o ciclo de leituras dramáticas.
Estão programados no Tinta Fresca, em maio, um ciclo de leitura de sete dramaturgos franceses contemporâneos com seus textos dirigidos por brasileiros. Na lista estão Michel Vinaver (King); Philippe Minyana (Inventaires); Olivier Py (trechos de várias peças); ValSre Novarina (Lettres aux acteurs), Michel Deutsch (Une Nuit au Théâtre) e Jean-Paul Wenzel (Faire Bleu).
Os consagrados Jean Genet, EugSne Ionesco, Arthur Adamov, Jean-Paul Sartre, Rene de Obaldia, Marguerite Duras e Fernando Arrabal ganham novos companheiros. Da novíssima geração, praticamente desconhecidos no Brasil, estarão presentes no País artistas como Gildas Milin, Jean-Lambert Wil, BérangSre Janelle, Benoit Lambert e Léa Dant.
A estatítica oficial da Sociedade dos Autores e Compositores Dramáticos – SACD – enumera 20 mil autores dramáticos afiliados na França. Aqueles que passarem pelo Brasil, na verdade, representam muito pouco do universo dramatúrgico da França atual. No material de divulgação distribuído pela AFAA sobre a teatralidade contemporânea, a atual situação dos escritores é analisada e não se diferencia muito daquilo que se faz no Brasil (veja matéria nesta página)
A primeira experiência do programa Tinta Fresca no Brasil aconteceu o ator André Marcon durante o 11º Festival de Teatro de Curitiba. No aconchegante Teatro Paiol, Marcon encenou ‘‘Discurso aos Animais’’, de ValSre Novarina. Apesar de legendado, a primeira dificuldade imposta ao público foi escolher entre assistir ao ator ou ler as legendas, projetadas numa altura impraticável. Para o público brasileiro, o trabalho de Novarina exige atenção redobrada para um tipo de performance quase inexistente por aqui. André Marcon fica praticamente imóvel metralhando um texto carregado de neologismos e arcaísmos.
Na peça, um homem fala aos animais em 11 passeios em que trafega por um painel interior obscuro e niilista (como todo bom francês). O achados sonoros e a erudição explosiva remetem ao trabalho de Paulo Leminski, principalmente ‘‘Catatau’’, de 1975, considerado uma selva de palavras que renovou o terreno da linguística.
Mesmo para aqueles que não entenderam lhufas do ‘‘Discurso...’’, a invisível e apurada técnica de interpretação de Marcon impressionou. Durante 50 minutos, ele falou sem titubear, tentando conquistar uma platéia quase impenetrável. ‘‘Discurso aos Animais’’ também foi apresentado em São Paulo, no Sesc Belenzinho.
Contatos: Serviço de Cooperação e de Ação Cultural da França: telefone (11) 287-9522; e-mail: [email protected]

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