O poder não sabe, mas pode se tornar tão frágil, como as tragédias humanas que o teatro contemporâneo japonês da companhia Shinjuku Ryozanpaku apresenta hoje e domingo, no Teatro Ouro Verde, no 40º Festival Internacional de Londrina (Filo), com o espetáculo ''King Yebi''.
Um espelho em que o aço é a tradição em que o homem contemporâneo olha os seus problemas. A moldura que sustenta essa visão é do diretor Kim Su Jin, influenciado pelo dramaturgo Kara Juro, um mestre do teatro situacional, que resgatou o kabuki, arte teatral japonesa reconhecida pela estilização do drama e a maquiagem elaborada dos atores.
O dramaturgo, que era de origem coreana, mas que nasceu no Japão, foi o primeiro que conseguiu unir as culturas japonesa e da Coréia. Ele traduziu para o idioma japonês vários textos coreanos para serem apresentados no Japão.
Juro, que criou o grupo Jokyo Gekijo, é referência para outros nomes da arte teatral japonesa, como Kazuo Ohno, do teatro Butoh. No elenco de 24 artistas, 15 fizeram parte da escola do mestre Juro. O próprio diretor e o ator Hiromi Kuronuma trabalharam com o mestre. Considerados ''os gigantes do teatro contemporâneo japonês'', o grupo tem em Kim um continuador da obra de Juro.
O espetáculo é parte dessa missão. Dentro do diretor vive o kabuki de Juro, que ornamenta a montagem inspirada num poema épico, considerado a versão asiática do clássico ocidental ''Rei Lear'', do dramaturgo inglês William Shakespeare.
Por esse espelho, o espectador poderá ver uma Ásia antiga, em um país dominado por Yebi, um rei que insistia em continuar sua linhagem por um filho homem, banindo a filha, Palidegi, recém-nascida. ''Ele tinha um poder tão grande que o cegou. Uma história que tem conexão com a atualidade. Hoje, a dinastia japonesa somente tem as netas, como herdeiras. Será preciso que as leis mudem para alguma delas assumirem'', compara Kim.
Fundada em 1987, a companhia já se apresentou em diversos países. O diretor é o primeiro do teatro contemporâneo japonês a utilizar música ao vivo em suas montagens, com instrumentos de origem coreana e japonesa - como se faz no kabuki tradicional.
Kim, lembra que essa é mais uma influência de Juro. ''Antes dele, o teatro japonês fazia cópias do ocidental. Juro redescobriu as raízes da arte teatral tradicional japonesa. É tradicional, original e contemporâneo'', destaca o diretor.

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