Uma das maiores filósofas da arte fotográfica Susan Sontag afirmou que todos são literais quando olham uma fotografia e que a câmera tem o poder redentor de libertar os fotógrafos dos fotografados. Avaliações como essas causaram grande furor nos meios intelectuais americanos e europeus, pairando sobre o trabalho de fotojornalistas, a exemplo do brasileiro Juca Martins.
Com quase quatro décadas de imagens, o fotógrafo independente, o primeiro brasileiro a cobrir guerras internacionais por conta própria ao desembarcar nos conflitos de El Salvador e do Líbano, atualmente é o editor da agência Olhar Imagem, uma das mais completas agências de fotografia do Brasil, fundada por ele.
Influenciado pelo maior fotógrafo de guerra do mundo, Robert Capa (1913-1954), Martins multiplica as palavras em suas fotos, que não posam bem ao lado da redundância das legendas que tomou conta do jornalismo brasileiro, como apontam alguns analistas. São imagens que falam sem a necessidade de tradutor. ''A primeira preocupação que tenho é sempre com a informação. A técnica e a estética dão força para a informação. A plasticidade, que é o que admiro mais, tem que descrever alguma coisa'', afirma Martins, que acredita que a grande contribuição da composição é com a durabilidade da fotografia.
Ganhador do Prêmio Esso de Fotografia, com a série de reportagens sobre menores, duas vezes vencedor do Internacional Nikon e ainda premiado do Vladimir Herzog de Direitos Humanos, com a reportagem sobre a guerra de El Salvador, Martins tem viajado o Brasil em busca de imagens que traduzam o País. Recentemente, ele registrou cenas no Rio Grande do Sul.
O fotógrafo, que já participou de exposições em vários países e que tem obras nos acervos do Museu de Arte de São Paulo (MASP) e Museu de Arte de Kunsthaus, em Zurique (Suíça), também foi o primeiro a fotografar a violência da polícia brasileira.
Martins convenceu o jornalista Mino Carta, que na época era editor da 'Isto É', a publicar as denúncias fotográficas contra o policial Kojak, que atuava nas greves do ABC paulista, reprimindo as manifestações de rua. Kojak era cabo eleitoral do governador Paulo Maluf.
''A fotografia continua tendo apreço grande e ganhou mais espaço na mídia. Hoje, todo mundo veicula imagens. O problema que vejo está na pauta e no gancho da matéria. Muita coisa virou moda, como fotografar comida e decoração. É uma coisa muito tênue. Surgiram algumas revistas muito boas, como a 'Piauí' e 'Carta Capital'. A 'Caros Amigos' poderia seguir esse caminho, mas ficou num layout e linguagem de 30 anos atrás. A revista 'Brasileiros' é outro bom exemplo. Porém, a publicação tem colocado na capa o presidente Lula e meninas de cidade grande em viagem à Antártida. Isso não representa os brasileiros'', avalia o fotógrafo.
Influenciado também pelo francês Henri Cartier-Bresson, Martins ergue o tripé de sua fotografia longe da busca pela melhor imagem a qualquer preço. Entre as histórias clássicas dessa tentação, que vulnerabiliza alguns profissionais e que começa com priorizar fotos posadas ou armadas, a do fotógrafo Brian Walski, do Los Angeles Times, acabou em demissão pública em nota do editor.
O fotógrafo resolveu dramatrizar suas fotos juntando dois fotogramas num terceiro, o que lhe rendeu uma primeira página no jornal. ''Não gosto de fazer. Acho errado e evito. Já vi tantas situações dessas. Como editor, eu não edito fotos posadas. Para começar, a gente como fotógrafo está invisível e não pode interferir no final da história. É preciso ter cuidado. Dependendo da situação em que está o fotógrafo acaba interferindo no acontecimento'', argumenta.
Com o foco interessado pelo social, Martins mantém uma equipe de 35 fotógrafos pelo Brasil e exterior em sua agência. ''Quero ver a idéia dele e o que o cara pensa e acha sobre a vida, olhando para o social. Que não seja somente um turista pelas cidades'', afirma Martins.
A experiência de quase 40 anos de fotografia passou como um flash do romantismo do preto-e-branco para o digital. O fotógrafo lamenta ter começado um pouco tarde, coisa de quatro anos, mas a nova tecnologia ampliou as suas possibilidades.
Martins lembra aos novos profissionais que é preciso aprender também com a maneira antiga de registrar as imagens em que, principalmente os cromos, têm muito a ensinar sobre luz.
Ele pretende organizar uma exposição com fotos dos fotógrafos da Olhar Imagem, mas também sobrevoa outros projetos, como fotografar os aeroportos brasileiros. Para além do apagão aéreo existem cenas do sistema de transporte que, na sua opinião, precisam ser colocadas no ar - também muitas outras histórias do fotojornalista, que não multiplica palavras, mas imagens.

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