A fotografia como profissão em visões diferentes
Elisa Marilia Carneiro
De Curitiba
O que há na imagem de uma cidade fria, cinzenta, onde as pessoas mantêm distância entre elas e os caminhos mostram direções diferentes ? Ícones fortes, duplos significados numa subjetividade para poucos entenderem é o trabalho que a fotógrafa Milla Jung mostra de segunda-feira a 30 de outubro, no Original Café.
Fragmentos distantes reflete a solidão do mundo de quem vive em Nova York e em Praga. A exposição foi montada com 40 fotografias em preto e branco que mostram contrastes e semelhanças entre o Velho e o Novo Mundo na visão da fotógrafa.
Para explicar seu trabalho, Milla começa definindo a diferença entre documentáro fotográfico e fotografia autoral. O documentário ou fotojornalismo mostra a realidade como ela é, de forma mais imparcial possível. Já a linha do ensaio, explora um tema a partir do ponto de vista do fotógrafo, e não o extraordinário ou os incidentes. É mais como uma antropologia visual.
A fotógrafa conta que começou a fotografar aos 14 anos, em 1989, quando foi morar em Buenos Aires e deparou-se com um crise social profunda. Como não conseguia conversar direito, usava a máquina fotográfica. Haviam pedintes, passeatas, estado de sítio, mudanças acontecendo. Registrei estes fatos com os olhos de um estrangeiro, conta.
No Brasil, esteve fotografando os pescadores semi-nômades dos Lençóis Maranhenses; Iemanjá, os movimentos de fé na Bahia. Sempre viajei por conta própria, para juntar dinheiro fazia trabalhos free-lancers, lembra.
Em troca de uma bolsa de estudos, foi assistente dos professores do Centro Internacional de Fotografia da Escola de Nova York. O dia-a-dia era difícil. Não sobrava muito tempo para as fotos, mas registrei as imagens da concentração máxima do capitalismo, o lado glamouroso da cidade, a falta de consistência da vida, a procura do sonho hollywoodiano. Nova York é uma cidade cruel.
Dos Estados Unidos, foi para a Escola de Artes Visuais da Universidade de Praga, onde morou por dois meses. Foi uma experiência mágica. Os checos criaram uma linguagem de realismo, subjetiva e profunda. Depois de 40 anos de dominação russa, os checos precisavam dar respostas, que não fossem percebidas pelas autoridades. Os ícones das fotos são muito fortes, cheios de duplos significados. Daí, as fotos das pessoas olhando cada uma para um lado, mantendo uma distância de dois braços, entre prédios cinzas e pesados, argumenta.
A vida nova, capitalista, é captada através dos sapatos que brilham em contraste com os de um boneco com sandálias franciscanas. Fiquei infinitas horas nesse local para conseguir essa imagem, lembra Milla. Outro anacronismo é mostrado com os uniformes militares. O estilista é europeu e desenhou um uniforme super moderno para os guardas de Praga.
Atualmente, Milla dedica-se a um projeto com os índios pataxós do Sul da Bahia. Ela pretende mostrar o que são os 500 anos depois do descobrimento. Para tanto, procura patrocínio para o projeto que já está aprovado pela Lei Rouanet de Incentivo à Cultura. O produto final será um livro e depoimentos gravados em albumina.
Exposição da fotógrafa Milla Jung Fragmentos do distante, de segunda-feira, às 19h, até 30 de outubro, no Original Café (Rua Vicente Machado, 622).Três fotógrafos mostram seus trabalhos, sempre passionais, em diferent es cantos do mundo, embaixo dágua ou na superfície
Milla JungA solidão de um leitor dentro de um vagão de trem, indo para algum lugarMilla JungTrilhos, setas, fios e olhares mostram as diferentes direções de um povo que viveu oprimido por 40 anos e que de repende se depara com um capitalismo comercialMilla JungOs uniformes impecáveis dos guardas de Praga foram desenhados por um estilista europeu moderno. É a cara nova para o que não mudou





