A programação do evento ''A Expressão Fotográfica e os Cegos'', inaugurada no último domingo, prossegue até a próxima sexta-feira. O filósofo-fotógrafo esloveno-francês Evgen Bavcar, estrela do evento, comanda desde ontem um workshop para um grupo de alunos do Instituto Londrinense de Trabalho e Instrução Para Cegos, no Jardim do Sol.
O Instituto abrigou, desde fevereiro, uma oficina de iniciação fotográfica comandada pela artista plástica Fernanda Magalhães com monitoria da jornalista Karen Debertólis. Bavcar, privado de visão desde os 12 anos, participa ainda de uma mesa-redonda e da exposição ''Visões Táteis'', que será inaugurada na quinta-feira no Museu de Arte.
Cidadão do mundo, ele viaja periodicamente ao redor do globo provocando perplexidade com sua trajetória singular. Costuma responder sempre a uma insistente pergunta durante as entrevistas: como foi possível tornar-se fotógrafo? Para responder à Folha, lembrou de um amigo de escola que havia perdido a visão e os braços precocemente.
''Ele tinha essas limitações físicas, mas conseguia ler em braille com o lábio inferior. O que parecia impossível, ele fazia. Assim como ele, conheço muitas pessoas que fazem coisas aparentemente improváveis. Só depende de ter o espírito aberto, de querer fazer. O problema não está na habilidade técnica, mas na cabeça'' explicou.
O filósofo-fotógrafo salientou que a sociedade vive regida por visões-clichês, condicionada psicológica e historicamente a não aceitar comportamentos que fogem do comum. ''Quando saio às ruas para fotografar, procuro ser discreto. Algumas pessoas não aceitam, são agressivas, não acreditam que um cego possa ter uma visão a partir de seu imaginário. Preferem que ele seja 'totalmente' cego'' observou.
Para a artista plástica Fernanda Magalhães, a experiência de trabalhar com deficientes visuais revelou-se ''bárbara''. ''Passei a compreender, de fato, que outros olhares são possíveis através do aguçamento dos demais sentidos'' diz. A idéia de coordenar uma oficina de iniciação fotográfica para cegos surgiu no ano passado a partir de leituras de textos do próprio Evgen Bavcar. A iniciativa terá continuidade em 2003, agora com dois módulos: um mais avançado, dirigido para a atual turma de participantes, e outro para os demais interessados.
''O pessoal ficou entusiasmado. Os outros alunos do Instituto que não se envolveram dessa vez, querem participar na próxima temporada'' anuncia. A diretora da escola, Silvia Leitis, aprovou a experiência. ''A oficina mexeu com todo mundo aqui'' afirma ela. ''Foi um desafio para os alunos, que ficaram encantados com a proposta de sair da rotina e quebrar barreiras. Antes, alguns deles viviam deprimidos e sem expectativas de vida. Com frequência, batiam no setor de psicologia. Depois, mudaram de comportamento sentindo-se valorizados e reconhecidos''.
A fotógrafa pernambucana Eliane Velozo, outra convidada do evento, participa da programação de hoje conversando com estudantes da UEL. Nascida em Pernambuco e radicada em Minas Gerais, a artista sofre de retinose pigmentar, que a fez perder progressivamente a visão a ponto de deixá-la hoje com apenas 10% de sua capacidade ótica.
''Quando descobri a doença, entrei em pânico, porque sempre atuei na área de artes visuais'' conta ela. ''Depois, vi que não era o fim do mundo e passei a desenvolver as habilidades dos outros sentidos. Compreendi que a gente não vê apenas com os olhos, mas o com o corpo todo''. Na sexta-feira, ela participa da mesa-redonda ''O Ponto Zero da Fotografia'', na Associação Médica, e lança o livro ''Tempos de Tempo''.
Para amanhã, a programação destaca a exibição do filme ''Janela da Alma'', um workshop com Eliane Velozo, uma palestra do pesquisador Adauto Novaes e um ciclo de video.

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