"A Fortuna de Cookie", de Altman, é sobre hipocrisia social
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quinta-feira, 25 de novembro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 25 (AE) - Embora Robert Altman tenha feito alguns dos melhores filmes do cinema americano (especialmente nos anos 70), também realizou mais filmes decepcionantes do que qualquer outro grande diretor. É o preço por ousar, mas ele mesmo gosta de dizer que nunca aspirou à perfeição de um Stanley Kubrick. "A Fortuna de Cookie" é mais um desses filmes decepcionantes de Altman, por mais que comporte observações divertidas sobre uma pequena cidade dos Estados Unidos.
Altman já foi mais contundente (em qualquer de suas obras-primas), mas o que incomoda em "A Fortuna de Cookie" talvez seja sua complacência na abordagem dos sulistas. A história trata das loucuras e armações da personagem interpretada por Glenn Close. Quando ocorre um suicídio na família, ela tenta transformá-lo em assassinato, colocando em risco a vida de um inocente. Termina presa na própria armadilha. Embora Glenn seja o primeiro nome no elenco, Camille, sua personagem em "A Fortune de Cookie", não é a protagonista do filme. O personagem que faz a síntese do filme é Willis, uma criação memorável do ator Charles S. Dutton.
Explicando o projeto, Altman disse numa entrevista que, desta vez, queria observar a cultura das cidadezinhas do sul americano, suas convenções sociais e seus segredos. Nesses lugares, todo mundo sabe sobre todo mundo, mas ninguém fala. O movimento do cineasta consiste em trazer à tona esses segredos que a hipocrisia social tenta manter ocultos.
Como projeto é interessante, mas falta a veia satírica ou, pelo menos, a sátira não é tão mordaz quanto nos melhores momentos do cineasta. Altman gosta de percorrer territórios já explorados em busca de um ângulo (ou enfoque) diferente. Quanto atinge seus objetivos, faz filmes bárbaros. Colhe um resultado apenas mediano em "A Fortuna de Cookie", embora o mediano de Altman possa ser considerado superior ao de muita gente menos qualificada.
No genial "Nashville", de 1975, Altman soltou sua câmera entre diversos personagens, numa influência assimilada de Luis Buñuel ("O Discreto Charme da Burguesia"). Desde então, repetiu várias vezes o procedimento, adaptando-o a temas e situações tão variadas quanto a festa de "Cerimônia de Casamento" e os painéis sociais de "Short Cuts - Cenas da Vida" e "Prêt-à-Porter". Com exceção do último, são todos ótimos.
Altman volta a soltar a câmera em "A Fortuna de Cookie". Por meio de numerosos personagens, ele traça o seu painel do sul. Algumas figuras são boçais, outras generosos e há o caso da Camille de Glenn Close, que parece concentrar em si as piores características da cobiça humana. Glenn acrescenta mais uma malvada à sua galeria. Mais do que malvada, é autoritária, mesquinha e indiferente ao sofrimento alheio. Orquestra a maioria dos problemas da comunidade e termina desconectada da realidade. Uma louca, dirá o espectador. Glenn sabe tirar essas personagens de letra. Julianne Moore, que faz sua irmã, Cora, não é menos eficiente como a mulher oprimida que vai à forra quando as circunstâncias assim o permitem.
Mas a grande surpresa de "A Fortuna de Cookie" talvez seja proporcionar um papel à veterana Patricia Neal. Ela faz a própria Cookie. Patricia foi uma das mulheres mais fascinantes da tela nos anos 40 e 50. Nos 60, ganhou o Oscar por "Hud, o Indomado". Era perfeita como mulher desleixada e sensual. Logo em seguida veio a trombose que a deixou semiparalisada. Patricia lutou muito contra a doença para retomar a vida. O que perdeu em juventude e beleza ganhou em humanidade.
No seu melhor filme dos anos 90 - "O Jogador" -, Altman foi contra a sintaxe de Hollywood na atualidade. Já entrou para a história o plano-sequência do início daquele filme
quando o cineasta acompanha sem cortes o movimento dos visitantes do estúdio. Eles são ciceroneados pelo executivo que explica que os filmes, hoje, por influência da TV, são todos picotados. Na produção industrial de Hollywood, quase não se fazem mais as tomadas longas, na suposição de que o filme, para prender a atenção do público, precisa ser picotado em corte e montagem.
O executivo explicava isso, mas Altman fazia o inverso, um só plano acompanhando o movimento da câmera. Ele não propõe nada tão audacioso em "A Fortuna de Cookie", mas o filme não deixa de ir contra essa nova sintaxe hollywoodiana. É narrado com calma, as coisas levam tempo para ocorrer. Mesmo sendo uma obra menor, é Altman, autor que sempre merece atenção, até quando erra. SERVIÇO - A Fortuna de Cookie. Comédia. Direção de Robert Altman. Com Glenn Close, Julianne Moore, Liv Tyler, Chris ODonnell, Charles S. Dutton. Duração: 118 minutos. 14 anos. Distribuição: Top Tape


