São Paulo, 27 (AE) - Muita gente se decepcionou com "A Fortuna de Cookie", o mais recente Robert Altman a baixar por aqui. Certo, não chega aos pés de "Nashville", "Short Cuts" ou "O Jogador". Mas, também, ninguém é obrigado a apresentar uma obra-prima por ano, não é? Ainda mais quando produz como Altman, que parece descansar quando está trabalhando. O lançamento de "Cookie" em vídeo é boa chance para uma reavaliação de um filme que, se não é grande, pelo menos parece bem divertido.
Sem se contar que, ao lado da diversão, traz o olhar de Altman, sempre ácido e agudo, sobre os costumes do seu país. No caso, o sul. A pequena cidade sulista, onde cada um tem seus segredos e cada qual conhece os defeitos do próximo, já que, por definição, ninguém conhece perfeitamente os seus próprios. A veterana Patricia Neal faz a Cookie do título, velhinha que certo dia aparece morta. Ninguém sabe ao certo se se suicidou ou foi assassinada. E há os parentes que desejam deixar o caso na sombra, para se apoderar da herança da falecida.
Glenn Close monta sua vilã em tom de caricatura. A bela Liv Tyler aparece como a sobrinha desleixada, algo masculinizada (se isso fosse possível), o rosto perfeito sujo de graxa. Tudo no fundo é apenas comédia. Uma história simples, que não se estraga pelo fim previsível. Mesmo porque, nesse caso em particular, o desfecho é que menos importa. Altman preocupa-se mais em compor cada personagem. Coloca a câmera sobre cada um deles, segue-o, examina-o.
Tem uma arma de análise, que se não é infalível, pelo menos parece eficiente: sua humanidade. Simpatiza com os tipos que coloca na tela. Mesmo com uma vilã como a criada por Glenn Close, responsável no fundo por todos os distúrbios da cidadezinha. Mas que não é tão má pessoa assim. Apenas terrivelmente confusa.
"A Fortuna de Cookie" é aquele tipo de filme despretensioso, feito para divertir, mas trai a sua origem. Nenhum trabalho de Altman pertence inteiramente ao gênero descartável. Mesmo nesse, com toda a sua humildade, vê-se uma maneira original de enxergar uma comunidade pequena. Há nelas, e o arguto Altman sabe disso, aqueles famosos segredos de Polichinelo, ou seja, que todo mundo conhece, mas ninguém fala a respeito. Essas verdades tabus, de certa forma, dão consistência à comunidade.
Embora seja uma consistência retrógrada porque se refere a algum tipo de culpa coletiva. Cabe a um olhar esperto desvendar esse mistério, cuja solução todos os participantes conhecem. Em benefício do prazer do espectador. Serviço - "A Fortuna de Cookie". EUA, 1999. Dir. de Robert Altman, com Glenn Close. Top Tape

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