Quase chegando ao fim, a saga ‘‘Star Wars’’, de George Lucas, ganha considerável reforço com ‘‘O Ataque dos Clones’’, em pré-estréia nacional a partir de amanhã
Como ‘‘Guerra nas Estrelas: Episódio I - A Ameaça Fantasma’’ não cumpriu exatamente o prometido quando lançado há três anos, George Lucas, o dínamo em pessoa, faz agora estratégica correção de curso nos caminhos da Força. É claro que permanece prioritária a meta comercial de ultrapassar os U$ 923 milhões que ‘‘The Phantom Menace’’ arrecadou em mercados somente deste planeta, segundo a revista Variety. Mas além das calculadas ambições de box office, o novo exemplar do pacote, ‘‘Star Wars: Episódio II - O Ataque dos Clones’’ (que tem pré-estréia amanhã em todo o Brasil e entra em cartaz na segunda-feira), chega revigorado e com fôlego de grande entretenimento, oferecendo um balanço satisfatório a partir da retomada das qualidades épicas, narrativas, tecnológicas e emocionais que fizeram glória e fortuna da série.
Neste ‘‘Episódio II’’ há grande variedade de temas e situações, o que representa considerável avanço quanto às fragilidades do argumento de ‘‘A Ameaça Fantasma’’. No episódio anterior, as alternativas eram bem mais modestas, como se concebidas especialmente para satisfazer o público infantil a partir da presença do pequeno protagonista Anakin Skywalker, evidente pretexto para captar novas hordas de fãs mesmo assumindo o risco de que calejados veteranos jogassem fora seus cartões de fidelidade carregados de milhagem intergalática. Generalizando: romance, aventura, guerra e intrigas políticas são alguns fios narrativos que conduzem ‘‘O Ataque dos Clones’’, salpicados pelas habituais notas de humor por conta dos robôs velhos conhecidos.
Em ‘‘O Ataque dos Clones’’, Hayden Christensen interpreta o agora jovem Anakin Skywalker, e Samuel L. Jackson o cavaleiro jedi Mace Windu. Christensen, de 21 anos, foi escolhido entre imensa lista de aspirantes para dar vida ao jovem aprendiz jedi e futuro e mórbido ditador Darth Vader. Pelas mãos de seu mestre Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) e de sua amada Padmé Amidala (Natalie Portman), o superdotado cavaleiro começa a enfrentar o lado obscuro e tenebroso que o acabará transformando no anti-herói da série, o homem que, dominado pela ira, atormentado pela dor e consumido pela solidão e seus tormentos, acabará traindo a si mesmo e a todos que o cercam.
No contexto da coletânea ‘‘Star Wars’’, originalmente concebida por Lucas para nove episódios mas afinal definida em seis (o próximo, em 2005, deve ser o ponto final), este ‘‘Ataque do Clones’’ mostra como a república (democrática) que une e pacífica a galáxia começa a se transformar no império (totalitário) da arbitrária Estrela Negra. O amor de Anakin por Amidala e o desejo que ele tem de vingar a morte da mãe estão na origem de sua guinada para o ‘‘lado obscuro da Força’’, vale dizer, Édipo e frustrações afetivo-hormonais, conjugados, têm sensível influência nesta guinada. O roteiro (de Lucas e Jonathan Hales) de fundo freudiano é de longe o mais introspectivo, complexo e misterioso desde a inauguração da saga, em 1977.
A técnica digital é naturalmente dona e senhora da forma que se vê na tela, oferecendo a Lucas, mago desta tecnologia e especialista mundial no registro ficção-científica, as garantias visuais propícias a seu imaginário sem limites. Em tempo: este imaginário de Lucas em termos de science-fiction não é nem barroco e nem delirante, mas glacial e perfeccionista. Tanto isto é verdade que, alertado pelo aspecto pueril dos resultados de ‘‘A Ameaça Fantasma’’, o diretor dispensou maiores e detalhadas atenções no sentido de extrair maior veracidade de componentes essenciais do segmento efeitos especiais, como o grafismo e a utilização das cores.
Infelizmente, a dupla central de atores, Hayden Christensen (Skywalker) e Natalie Portman (Amidala), acabam sendo mais tolerados do que apreciados. Christopher Lee, como o vilão emergente Conde Dooku (velada homenagem ao arquivampiro imortalizado pelo ator), eleva sensivelmente o nível do drama com sua inconfudível e inabalável fé nos pressupostos da vilania. Quando Lee se despedir das telas (embora em grande forma, está com 79), a encarnação do Mal no cinema terá difícil lacuna a preencher.

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