A 'Força' de Lucas volta às telas
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 28 de junho de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<BR>Especial para a Folha 2 
Quase chegando ao fim, a saga Star Wars, de George Lucas, ganha considerável reforço com O Ataque dos Clones, em pré-estréia nacional a partir de amanhã
Como Guerra nas Estrelas: Episódio I - A Ameaça Fantasma não cumpriu exatamente o prometido quando lançado há três anos, George Lucas, o dínamo em pessoa, faz agora estratégica correção de curso nos caminhos da Força. É claro que permanece prioritária a meta comercial de ultrapassar os U$ 923 milhões que The Phantom Menace arrecadou em mercados somente deste planeta, segundo a revista Variety. Mas além das calculadas ambições de box office, o novo exemplar do pacote, Star Wars: Episódio II - O Ataque dos Clones (que tem pré-estréia amanhã em todo o Brasil e entra em cartaz na segunda-feira), chega revigorado e com fôlego de grande entretenimento, oferecendo um balanço satisfatório a partir da retomada das qualidades épicas, narrativas, tecnológicas e emocionais que fizeram glória e fortuna da série.
Neste Episódio II há grande variedade de temas e situações, o que representa considerável avanço quanto às fragilidades do argumento de A Ameaça Fantasma. No episódio anterior, as alternativas eram bem mais modestas, como se concebidas especialmente para satisfazer o público infantil a partir da presença do pequeno protagonista Anakin Skywalker, evidente pretexto para captar novas hordas de fãs mesmo assumindo o risco de que calejados veteranos jogassem fora seus cartões de fidelidade carregados de milhagem intergalática. Generalizando: romance, aventura, guerra e intrigas políticas são alguns fios narrativos que conduzem O Ataque dos Clones, salpicados pelas habituais notas de humor por conta dos robôs velhos conhecidos.
Em O Ataque dos Clones, Hayden Christensen interpreta o agora jovem Anakin Skywalker, e Samuel L. Jackson o cavaleiro jedi Mace Windu. Christensen, de 21 anos, foi escolhido entre imensa lista de aspirantes para dar vida ao jovem aprendiz jedi e futuro e mórbido ditador Darth Vader. Pelas mãos de seu mestre Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) e de sua amada Padmé Amidala (Natalie Portman), o superdotado cavaleiro começa a enfrentar o lado obscuro e tenebroso que o acabará transformando no anti-herói da série, o homem que, dominado pela ira, atormentado pela dor e consumido pela solidão e seus tormentos, acabará traindo a si mesmo e a todos que o cercam.
No contexto da coletânea Star Wars, originalmente concebida por Lucas para nove episódios mas afinal definida em seis (o próximo, em 2005, deve ser o ponto final), este Ataque do Clones mostra como a república (democrática) que une e pacífica a galáxia começa a se transformar no império (totalitário) da arbitrária Estrela Negra. O amor de Anakin por Amidala e o desejo que ele tem de vingar a morte da mãe estão na origem de sua guinada para o lado obscuro da Força, vale dizer, Édipo e frustrações afetivo-hormonais, conjugados, têm sensível influência nesta guinada. O roteiro (de Lucas e Jonathan Hales) de fundo freudiano é de longe o mais introspectivo, complexo e misterioso desde a inauguração da saga, em 1977.
A técnica digital é naturalmente dona e senhora da forma que se vê na tela, oferecendo a Lucas, mago desta tecnologia e especialista mundial no registro ficção-científica, as garantias visuais propícias a seu imaginário sem limites. Em tempo: este imaginário de Lucas em termos de science-fiction não é nem barroco e nem delirante, mas glacial e perfeccionista. Tanto isto é verdade que, alertado pelo aspecto pueril dos resultados de A Ameaça Fantasma, o diretor dispensou maiores e detalhadas atenções no sentido de extrair maior veracidade de componentes essenciais do segmento efeitos especiais, como o grafismo e a utilização das cores.
Infelizmente, a dupla central de atores, Hayden Christensen (Skywalker) e Natalie Portman (Amidala), acabam sendo mais tolerados do que apreciados. Christopher Lee, como o vilão emergente Conde Dooku (velada homenagem ao arquivampiro imortalizado pelo ator), eleva sensivelmente o nível do drama com sua inconfudível e inabalável fé nos pressupostos da vilania. Quando Lee se despedir das telas (embora em grande forma, está com 79), a encarnação do Mal no cinema terá difícil lacuna a preencher.


