A força das palavras
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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
Luiz Carlos Merten<br>Agência Estado 
São Paulo - Steven Spielberg pode ter ganho apenas um prêmio no Globo de Ouro para o seu magnífico "Lincoln" e foi o de melhor ator para Daniel Day-Lewis, realmente prodigioso no papel, mas não representa pouca coisa ter tido um ex-presidente - Bill Clinton - na apresentação do finalista para melhor filme. "Argo" terminou levando o Globo e o filme de Ben Affleck certamente possui qualidades, mas "Lincoln" é outra coisa, e de outra grandeza. O filme concorre a 12 estatuetas da Academia de Hollywood, incluindo melhor filme, diretor, roteiro adaptado, ator (Daniel Day-Lewis) e atriz coadjuvante (Sally Field).
Spielberg ganhará seu terceiro prêmio de direção, após os que conquistou por "A Lista de Schindler" e "O Resgate do Soldado Ryan"? Day-Lewis receberá o terceiro Oscar, após os de "Meu Pé Esquerdo" e "Sangue Negro"? Sally receberá também seu terceiro, após os dois de melhor atriz, por "Norma Rae" e "Um Lugar no Coração"?
O tempo dirá, mas o importante, mais que os prêmios, é que o público reconheça a importância desse Spielberg fortemente político. "Lincoln" estreia uma semana depois de "Django Livre". O spaghetti western de Quentin Tarantino fantasia e transforma um escravo alforriado em caçador de recompensas para falar do mesmo tema que assombra Abraham Lincoln - a escravidão.
No filme de Spielberg, o personagem tem um projeto de nação. Consiste em unir o Norte industrializado e o Sul agrário, mas ele só se viabilizará se a instituição da escravatura for abolida, e o poderio dos senhores sulistas se assenta sobre o conceito de que homens, os negros, são mercadorias. Não é o que reza a pedra angular da Constituição norte-americana, erigida pelos pais da pátria. "Todo homem é igual perante a lei."
Não é a primeira vez que Spielberg se apropria dessa discussão, que já estava em "Amistad", de 1997. Uma leva de escravos num galeão estrangeiro tomava o poder na costa dos EUA. Eram levados a julgamento. O caso parecia perdido, mas entrava em cena John Quincy Adams e Anthony Hopkins, numa atuação antológica, revertendo a maré e estabelecendo o fundamento - os negros não apenas possuem alma, possuem direitos.
Spielberg tem sido, nesses anos todos, um desafio para a crítica. Quando irrompeu em Hollywood, fazia um cinema de diversão e criou blockbusters que levaram a crítica a pensar nele como um garoto crescido que fazia do cinema o seu brinquedo. Foi assim em "Tubarão", "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" e "E.T. - O Extraterrestre". Para se livrar da etiqueta de 'Peter Pan', Spielberg fez "O Império do Sol" e, depois, "A Cor Púrpura", sobre a escravidão das mulheres negras, muito após a sua libertação no papel.
Surgiram filmes poderosos - "Schindler", "Soldado Ryan" -, mas Spielberg desconcertava porque seguia com seus dinossauros e Indiana Jones. E aí veio a trilogia informal, formada por "O Terminal", "Guerra dos Mundos" e "Munique". Sem uma só referência ao 11 de Setembro, os três filmes retratam os EUA assolados pela paranoia desencadeada pelo ataque às torres gêmeas, propõe questões estratégicas e geopolíticas, discute a desumanização das leis. Muito mais denso e profundo do que as provocações de Michael Moore em "Fahrenheit 11 de Setembro". Mas era Spielberg, e houve gente - críticos - que nem se dignaram a prestar atenção no que ele estava dizendo.
Epopeia fordiana
O próprio Spielberg tem seu farol - toda a obra de John Ford é uma reflexão sobre a América, sobre quanto custa criar uma civilização, mais até que uma sociedade. E Ford tem sido a referência de Spielberg. "E.T." tem aquela cena do beijo de "Depois do Vendaval". "Guerra dos Mundos" repete o plano final da obra-prima "Rastros de Ódio". E "Lincoln"... Ford fez "A Mocidade de Lincoln", com o jovem Henry Fonda, e em "Crepúsculo de Uma Raça", quando tomou a defesa dos índios, refletiu a cara do ex-presidente no rosto do secretário de Estado que se revela sensível ao problema.
Como monumento de cinema, que é, "Lincoln" não deixa de ser uma epopeia fordiana. O grande artista abordou a Guerra Civil em filmes como Marcha de Heróis e no episódio de A Conquista do Oeste. Há uma guerra, e violenta, em "Lincoln", mas há outra guerra, igualmente brutal, fundada na palavra e que se desenrola no Congresso, entre os representantes do povo.
Ford deu uma gloriosa lição de democracia em "O Homem Que Matou o Facínora". Spielberg dá a dele em "Lincoln". Não teria chegado aqui sem "Amistad", sem sua trilogia sobre o 11 de Setembro. O filme trata Lincoln e a Guerra Civil a sério, não como a fantasia - mas era uma fantasia divertida - de "O Caçador de Vampiros", do russo Timur Bekhmambetov, em que o Sul escravocrata se unia aos sugadores de sangue para manter o status quo.
"Lincoln", o filme, é único, até na carreira de seu diretor. Nunca se falou tanto num filme de Spielberg. Um dos desafios era justamente como filmar o diálogo. Campo/contracampo e algo mais. Nem o filme nem Spielberg temem a palavra. Ela reina soberana no deslumbrante "Lincoln".


