A força da delicadeza
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Geraldo Bessa<br>TV Press 
O olhar expressivo e os longos cabelos cacheados são a marca registrada de Claudia Ohana. O visual exótico, inclusive, proporcionou à atriz uma infinidade de papéis intensos e nada convencionais, como a vampira "rockstar" Natasha, de "Vamp", e a caminhoneira Cida, de "A Favorita".
Na contramão do óbvio e perto de completar 51 anos no próximo dia 6 de fevereiro , ela comemora a possibilidade de dar vida a uma mulher comum como Laura, de "Joia Rara", uma dona de casa devota ao marido e à família. "Com a Laura, sinto que as pessoas começaram a me ver de outra forma. O grande exercício para fazer essa personagem é me forçar a ser 'menos' em cena. Não preciso exibir força ou sensualidade, apenas ser simples e entender os sofrimentos dela", conta.
Carioca, filha de uma montadora de cinema e um pintor, a arte sempre esteve em evidência na vida de Claudia. Com a morte da mãe, começou a fazer figuração em tramas como "Dancin' Days", de 1978. Até que a repercussão de sua estreia no longa-metragem "Amor e Traição", de 1979, a levou de fato para a tevê, onde estreou na série "Obrigado Doutor", de 1981.
Ao longo das duas décadas seguintes, teve destaque em tramas como "Tieta", "Rainha da Sucata" e "A Próxima Vítima". "Entre sucessos, personagens grandes e pequenos, criei uma relação muito gostosa com a tevê. Tenho ficado meio distante de vez em quando. Mas, quando aparecem papéis interessantes como a Laura, fica impossível dizer 'não'", valoriza a atriz, que, ainda este ano, lança seu primeiro projeto como diretora, estará na versão teatral de "Se Eu Fosse Você..." e em "Psi", nova série do canal por assinatura HBO.
Em "Joia Rara", Laura representa a típica mulher submissa ao marido dos anos 1940. Mas, aos poucos, ela questiona sua própria postura. Essa força da personagem a instigou a participar da novela?
Laura tem uma força mais internalizada. Ser mulher naquela época não era uma coisa tão fácil (risos). Acho que o casal formado por ela e pelo personagem do Leopoldo (Pacheco) é muito fiel ao que era um casamento dentro do contexto da classe média daquele período. A gente nem precisa fantasiar demais para chegar até eles. O que leva minha atuação por um caminho bem intuitivo e natural. Durante muitos capítulos, minha principal referência era a fragilidade dela. Aos poucos, isso foi mudando e a personagem ganhou outros contornos, enfrentando a família e envolvendo-se com causas sociais. No entanto, continuo tentando fazê-la da forma mais doce possível.
Por conta dos cabelos e do olhar, sua presença cênica é muito forte. Interpretar um tipo mais sóbrio é uma forma de fugir do óbvio?
Dar vida a um tipo mais comum e contido é uma experiência bem interessante. É engraçado, mas muita gente fala do meu olhar e sei que tenho um rosto exótico. Isso marca muito e acabo emprestando um pouco dessa força aos papéis. "Joia Rara" é toda amparada por personagens femininos de muita intensidade. A trama está a favor disso e a Laura acabou inserindo-se aí. Mesmo assim, ela não perde a doçura e o jeito mais leve de se portar. Coisa de novela! Você sabe como começa e nunca sabe como termina (risos). Quando a personagem é bem escrita, ela funciona em qualquer nuance. E gosto do desenho que as autoras estão dando para a Laura.
Durante os anos 1990, você acumulou papéis de destaque em tramas como "Rainha da Sucata", "Vamp" e "A Próxima Vítima". No entanto, nos últimos anos, sua presença em novelas tornou-se bissexta. A televisão deixou de ser uma prioridade?
Acho que eu passei a fazer só o que tenho vontade, o que eu acho realmente relevante. Pela falta de personagens interessantes nos últimos anos, acabei concentrando meu trabalho no cinema e no teatro. Sei que não é todo dia que aparece uma Natasha (protagonista de "Vamp") ou uma vilã como a Isabela (de "A Próxima Vítima"). Qualquer atriz tem de conviver com essa sensação. É por isso que aproveito quando tenho a chance de fazer um grande trabalho.
A música sempre esteve muito presente na sua vida e, em "Vamp", isso ficou evidente para o público. Por que você não investiu em uma possível carreira de cantora?
Na época, choveram convites de gravadoras. Se eu fosse esperta e boa empresária, teria investido muito em mim. Mas eu era mais uma idealista da arte, achava um absurdo a possibilidade de aproveitar aquele trabalho e a personagem para fazer sucesso.
Você se arrepende dessa postura?
Arrependimento é inútil. Gostaria de ter a grana, mas também acho bonito ter princípios. Naquela época, eu estava preocupada em não me vender (risos). Hoje, acho isso tudo uma grande besteira. Por sorte, investi em musicais e pude continuar mostrando a voz nos palcos.
Além de "Joia Rara", ainda este ano, você estará no teatro com a versão musical de "E Se eu Fosse Você..." e na série "Psi", da HBO. Como vai conciliar os três projetos?
A peça estreia em março no Rio de Janeiro, a novela vai até abril e a série já está totalmente gravada. Só vou emendar os ensaios do musical com o final do folhetim, mas não é a primeira vez que me envolvo com diversos trabalhos ao mesmo tempo. Estou em um momento de muita satisfação profissional. A novela é linda e minha personagem, muito estimulante. No musical, eu volto a trabalhar com um monte de gente que adoro, o Daniel Filho, inclusive. E a oportunidade de fazer algo com a HBO foi muito bem-vinda. Eles dão um acabamento único para as produções que fazem.


