A fina sintonia dos corpos
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segunda-feira, 14 de abril de 1997
Zeca Corrêa Leite Sucursal de Curitiba 
DivulgaçãoLOiseau de Feu, com o Béjart Ballet Lausanne: cartaz de hoje, no GuairãoMaurice Béjart, um dos maiores nomes da dança da atualidade, está no Brasil para apresentações em cinco capitais. Curitiba é uma delas, ao lado de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte, embora aqui a apresentação tenha data única - hoje, às 21 horas, no Guairão.
O grande bailarino e coreógrafo, que completou 70 anos de idade no primeiro dia de 1997, traz para esta temporada com a companhia Béjart Ballet Lausanne, os bailados LArt du Pas de Deux e LOiseau de Feu - (O Pássaro de Fogo).
As duas partes representam uma retrospectiva da carreira do artista. LArt du Pas de Deux é uma coletânea dos melhores pas de deux que ele criou ao longo das últimas décadas, e O Pássaro de Fogo é como um marco na carreira de mais de 40 anos. Foi sua primeira grande coreografia, criada para a companhia de Birgitt Cullberg, durante a temporada que passou em Estocolmo (Suécia), em 1952.
Paraíso perdidoMaurice Béjart reflete sobre a arte do pas de deux, considerando o encontro de duas polaridades, duas forças antagônicas que no palco - como na vida - formam o todo. São os dois lados da beleza, que naturalmente é o homem e a mulher, o pai e o filho.
Busca-se num pas de deux a unidade através da dualidade, a harmonia e o complemento. Essa dualidade é o nosso sofrimento, mas é de onde o poeta, com sua lira, extrai suas notas sublimes e tristes, escreveu Béjart, Um pas de deux talvez seja o paraíso perdido.
Em O Pássaro de Fogo o coreógrafo propõe que a dança seja a expressão abstrata dos dois elementos sempre presentes na música de Igor Stravinski - um sentimento profundo da Rússia e uma certa ruptura com a tradição musical, tão marcadamente presente nos seus compositores.
Stravinski trazia consigo a qualidade de ser um revolucionário. Portanto, se o Pássaro de Fogo é o Fênix que renasce das cinzas, também o poeta, assim como o revolucionário, vem a ser o representante do eterno renascimento, pensa Béjart.
Encanto e estranhamentoO Béjart Ballet Lausanne está completando 20 anos. A primeira formação, em 1987, era volumosa, tinha 60 bailarinos e caracterizou-se inicialmente por apresentar grandes produções. Nessa época, o coreógrafo já estava com seu nome na história da dança não só pelos trabalhos realizados em outros grupos, como por ter fundado a companhia Balé do Século XX, em 1960. Realizou diversas turnês internacionais.
Em 1992 o Ballet Lausanne foi drasticamente reduzido para 25 elementos. Essa mudança obrigou a companhia a tomar outro rumo, desenvolvendo outro tipo de trabalho. A rota diversa do que vinha apresentando não empanou o brilho da carreira - o público e crítica mantiveram-se com o mesmo entusiasmo. Nesta nova fase foram encenadas coreografias como Le Mandarin Merveilleux (1993) e King Lear-Prospero (1994) com grande repercussão na França.
Seja em grandes ou médias formações, a genialidade de Maurice Béjart está sempre presente. Nascido a 1º de janeiro de 1927, em Marselha, filho do filósofo Gaston Berger, Maurice Béjart iniciou-se na dança estudando com Madame Egorova, Madame Rousanne e Leo Staats. A coreografia estava no sangue: aos 20 anos compôs Vichy, seu primeiro número.
O Pássaro de Fogo surgiu sob a influência do expressionismo, mas o reconhecimento da crítica ao seu talento viria mais tarde, com as obras de Chopin. Aí então o bailarino já estaria morando em Paris.
Encanto e estranhamento experimentados pela platéia seriam registrados ainda na década de 50, pela linguagem avançada e muito própria do seu criador. Porém foi com A Danação de Fausto, de 1964, levado na Ópera de Paris, que os franceses realmente se escandalizaram pela ousada abordagem do tema.
Embora o nome Béjart esteja associado à dança, o artista também é escritor, diretor de teatro, ópera e cinema. Tem recebido diversas condecorações e prêmios ao longo de sua carreira, como o Prêmio Imperial, em 1993, da Associação de Arte do Japão que destaca, a cada ano, cinco artistas de todo o mundo.
q Béjart Ballet Lausanne - companhia de Maurice Béjart. Única apresentação hoje, às 21 horas, no Guairão. Ingressos: R$ 70,00 (platéia), R$ 60,00 (primeiro balcão) e R$ 40,00 (segundo balcão).


