A fina costura da trama
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sexta-feira, 29 de setembro de 2017
Marcos Roman<br>Reportagem Local 

Contrariando especulações de que os brasileiros andam cansados de novelas, "A Força do Querer" reconquistou o público e elevou em 25% a audiência da Rede Globo no horário nobre em relação à sua antecessora. A trama que já está na reta final e que é companhada por cerca de 60 milhões de pessoas também tem sido elogiada pela crítica especializada, que tem apontado a atração como o melhor folhetim escrito por Glória Perez. A autora que jogou holofotes em temas polêmicos deve manter os telespectadores vidrados na tela nas próximas semanas aguardando o desfecho de personagens que levantaram debates sobre questões atuais envolvendo transgêneros e tráfico de drogas, entre outros.
Na avaliação do jornalista Edenilson de Almeida, mestre em Ciências da Comunicação pela USP, "A Força do Querer" tem feito sucesso porque Gloria Perez retomou aquilo que o folhetim tem de mais importante, que são as boas tramas. "As pessoas vivem dizendo que a novela vai acabar, que o formato está cansativo, mas eu não concordo. O que as pessoas querem na verdade são histórias bem contadas. Acho que o brasileiro é tão apaixonado por novela quanto pelo futebol. Uma trama com 42 pontos de audiência, em média, significa aproximadamente um público de 60 milhões de telespectadores diariamente. Olha a quantidade de pessoas que param para ver uma novela", argumenta.

Almeida destaca que Glória Perez tem tratado basicamente de três assuntos. "Tem a questão do transgênero, vivido pela personagem Ivana (Carol Duarte); o vício no jogo abordado pela personagem Silvana (Lilia Cabral) e também a sedução tanto da Ritinha (Isis Valverde), que vive um triângulo amoroso, quanto da Bibi (Juliana Paes), que se deixou seduzir por uma paixão e acabou entrando para o tráfico junto com seu marido Rubinho (Emílio Dantas). Acho que todos eles foram abordados de maneiras muito interessantes", elogia.
A construção de personagens multifacetados foi outro fator positivo da novela destacado pelo jornalista. "Os personagens não são maniqueistas, com exceção da vilã Irene que apesar do excelente trabalho da Débora Falabella, a vilã não é o principal foco da novela. A Glória mostra, por exemplo, a Silvana (Lilia Cabral), que é uma viciada em jogo, mas ela também é uma amiga muito fiel e solidária com a Joyce (Maria Fernanda Cândido). Tem a Jeiza (Paola Duarte), que é 'marrenta', mandona e autoritária, mas que teve um gesto de solidariedade de fazer o parto da Ritinha (Isis Valderde). Tem ainda o Eurico (Humberto Martins), que é um troglodita, mas que se revela sensível em algumas situações. Os personagens são como nós, gente como a gente, com defeitos e com virtudes que agem de uma determinada forma num momento e de outra forma em outro momento. Acho muito interessante os personagens ficam mais multifacetados. E nós, seres humanos, somos assim", defende.

A ficção encosta na realidade
A exemplo de outras novelas que escreveu, Glória Perez volta a tocar em temas urgentes e atuais em "A Força do Querer". A autora levou para a tela vários elementos da vida real. Um exemplo é a personagem Bibi (vivida pela atriz Juliana Paes) que foi inspirada na vida de Fabiana Escobar, a ex "Baronesa do Pó".
Na vida real, Fabiana Escobar era estudante de Serviço Social da UFRJ, mas acabou se casando com seu amor de infância, Saulo de Sá Silva. O casal tinha tudo para ter uma vida normal, se não fosse pelo fato de o marido ter se tornado o "Barão do Pó", um dos maiores traficantes da Rocinha, no Rio de Janeiro. O livro de Fabiana, "Perigosa", se tornou um laboratório para que Glória Perez criasse a personagem de Juliana Paes. O tema fica ainda mais atual no momento em a Rocinha vive um grande conflito com gangues adversárias disputando o tráfico e Danúbia Rangel, parceira do traficante Nem, preso em Rondônia, revive a mística das mulheres do crime, uma espécie de fetiche que põe vidas em risco. Em meio à crise, Danúbia mantém vários perfis nas redes sociais e sua vida, que se parece com uma telenovela, alinha ficção e realidade dando a medida de que nem tudo que está na telinha "é coisa de novela", mas a projeção de problemas reais que viram casos de polícia. Glória Perez é mestra em aproveitar essas conexões.
Mas para o jornalista Edenilson de Almeida, mestre em Ciências da Comunicação pela USP, a principal abordagem da novela é a questão do transgênero. "É um assunto que está super em pauta. Até setembro, o Brasil bateu o recorde de maior número de LGBTs [Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros] assassinados (277 homicídios registrados somente neste ano). Acho que Glória ao contar a história da Ivana (Carol Duarte) fez isso de uma maneira tão sensível que as pessoas passaram a entender efetivamente o que é identidade e o que é gênero. Essa história da Ivana ter nascido como um homem num corpo de mulher e ainda assim ser gay é uma coisa muito complexa. Uma coisa interessante é a forma didática como o caso foi apresentado. Enquanto Ivana aparecia falando: "eu não me reconheço neste corpo", a gente via o Nonato (personagem de Silvero Pereira, que dá vida a um motorista Nonato e ao travesti Elis Miranda) dizendo "eu sou um homem que gosta de homenagear as mulheres", ou seja, eu não quero ter outro corpo. Acho que isso mostra uma habilidade da autora e a sensibilidade da direção de fazer esses contrapontos. Pouco a pouco a Ivana foi conquistando o público. Acho que hoje não tem quem não queira ver a transformação da Ivana em um homem, por que todo mundo acompanhou o sofrimento dela", contextualiza.
Almeida acredita que a cenas que registram o momento que a personagem Ivana revela sua transexualidade aos pais e em seguida corta o cabelo - que era comprido - entrará para a história da teledramaturgia brasileira. A novela "A Força do Querer" deve ter seu último capítulo exibido no dia 20 de outubro. (M.R.)


