A ficção científica de Bertoldo Schneider
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
A ficção já explorou nas telas de cinema o universo fantástico em que a realidade pode ser uma ilusão. Porém, a Ciência foi quem encontrou a argumentação necessária para formular a hipótese de que existe uma chance em quatro de estarmos vivendo uma simulação do real, como se fosse numa ''Matrix'', trilogia cinematográfica dos irmãos Wachowski, claramente inspirada na obra do filósofo sueco Nick Bostrom, da Oxford University.
No livro ''Argumentos da Simulação'' (Simulation Argument), o filósofo afirma que o poder de processamento de nossa realidade irá avançar a tal ponto que algum dia um sistema poderá simular o real.
Essa mesma hipótese norteia também o conto ''Sobrevivente'', do escritor curitibano Bertoldo Schneider Júnior. Na obra, uma inteligência artificial perdida no espaço sucumbe à hesitação de que realmente seria uma máquina, acreditando na evolução da espécie e numa consciência que poderia mudar a história.
Algo em comum com as idéias de Bostrom? Se observarmos pelo telescópio da Ciência podemos dizer que sim, já que a obra de Schneider não anda com a cabeça na lua, mas com os pés bem firmes no que é factível.
''Prefiro criar histórias que chegam a ser pedagógicas. Acredito que a literatura de ficção também é para divertir, mas aprecio as coisas que têm a possibilidade de acontecer, mesmo que num tempo longíquo. Hoje, a Ciência diz que não existe a chance de podermos viajar na velocidade da luz, mas existem pessoas que têm fé que um dia vamos subverter essa lei natural'', afirma.
Os personagens criados pelo curitibano possuem em seus componentes questões humanas, como no conto ''Dactyl'' em que um homem simples sonha encontrar o amor num asteróide de ouro puro polido.
Formado em Engenharia, professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Schneider diz que o engenheiro surgiu a partir do gosto por leituras como Arthur Clarke, autor do romance de ficção ''2001 - Uma Odisséia no Espaço'', que inspirou o filme do diretor Stanley Kubrick.
O escritor busca inspiração para criar os seus personagens no próprio ambiente científico da vida acadêmica.
Ele diz que parte da observação de atitudes e comportamentos de outros professores e alunos, acrescentando que os cientistas também trazem inquietações e não são apenas os ateus fixados pelo estereótipo.
Para Schneider, escrever ficção científica é tentar responder perguntas que rondam a humanidade. Talvez por isso, a atmosfera dos seus textos seja obscura e vasculhe mais a impotência do que o poder do homem frente à realidade.
''A ficção científica é a única que pode falar confortavelmente sobre as três perguntas básicas do homem: 'Quem sou, de onde vim e para onde vou'. Acho a ficção uma forma de literatura mais completa porque fala do que pode ser e o que já foi e tudo isso cabe num conto pequeno de duas ou três páginas'', avalia o escritor.
Schneider conta que tem textos suficientes para a publicação de pelo menos dois livros e que, por enquanto, circulam apenas no Clube dos Leitores de Ficção Científica (CLFC).
O autor diz que começou a pensar seriamente em escrever nos últimos anos e que se uniu a alguns autores na Confraria dos Escritores de Ficção Científica, criado em 2000, na expectativa de conseguir publicar os textos.
''A gente está trabalhando ainda de uma forma meio amadora. A nossa intenção é publicar um livro de histórias de ficção, mas, no Brasil, é difícil se lançar editorialmente. Sei que Londrina tem iniciativas interessantes, como a da aditora Atrito Art, que está conseguindo publicar livros legais. Fora dessas iniciativas é difícil encontrar espaço''.


