Imagem ilustrativa da imagem A festa junina não é mais a mesma
| Foto: Shutterstock


Tão ou mais populares do que o Carnaval, nesta época do ano, ressurgem "arraiás" e festejos juninos. O esforço para relembrar o passado de celebrações faz lembrar a cultura e a tradição de uma comemoração que é histórica. Pipoca, pé de moleque, milho verde e outras comidas típicas são algumas das características difíceis de esquecer. As brincadeiras também não ficam atrás. As barraquinhas de pescaria e danças de quadrilha fazem a alegria de crianças e adultos.
Hoje, no entanto, as comemorações caipiras estão perdendo sua tradicionalidade. Redes de fast-food patrocinam festas juninas de escolas particulares, com barracas de comidas estrangeiras como hambúrgueres, que tomaram o lugar da maria -mole e das paçocas. Igrejas evangélicas realizam festas "Sem João" e algumas igrejas substituem o tradicional quentão pelo "crentão", que é a bebida típica da festa sem álcool. Shoppings centers também fazem pequenos "arraiás" em suas praças de alimentação. Além disso, até mesmo as prendas das barraquinhas, antes produzidas artesanalmente, dão lugar a brinquedos eletrônicos, vale-compras e descontos em salões de beleza.

Fica cada vez mais evidente, que a falta de compromisso com a tradição acaba por descaracterizar a festa popular. Importante ressaltar também, a ausência de incentivo do poder público para preservar o que é um patrimônio cultural de grande importância para o país.

Raimundo Maia, o Ceará: "Conhecimento e identidade são coisas de extrema importância que merecem ser preservadas"
Raimundo Maia, o Ceará: "Conhecimento e identidade são coisas de extrema importância que merecem ser preservadas" | Foto: Ricardo Chicarelli



Na região do nordeste, as festas para Santo Antônio, São João e São Pedro coincidem com a época em que se quebram as espigas de milho, ou seja, o tempo da colheita, do frio e o início do ano agrícola. É quando os moradores do campo acreditavam precisar mais de proteção, para evitar a influência dos espíritos do mal e para espantá-los, soltam bombas e rojões. Raimundo Maia, o Ceará, idealizador e organizador de 17 Semanas Nordestinas em Londrina, conta que na infância, essa tradição ainda era muito forte. "Todas as ruas tinham três ou quatro fogueiras nessa época. Quem tinha dinheiro, comprava rojão. Quem não tinha, jogava cabaça verde na fogueira, só pra fazer barulho".

De lá pra cá, o ciclo junino, ao se urbanizar, vem perdendo a sua originalidade. Embora ainda existam alguns pequenos focos de resistência, é notável que essa e outras ricas manifestações populares se reduziram de forma significativa, dependentes de poucos entusiastas ou idealistas que procuram mantê-las a qualquer custo.

'Devolva meu São João'

As celebrações juninas hoje, são um mix de contribuições dos vários povos que aqui se estabeleceram com o passar do tempo. Em meio a tudo isso, outra mistura tem intrigado e gerado debate entre os forrozeiros entusiastas da cultura junina no nordeste: a entrada do sertanejo universitário nas celebrações. Artistas como Elba Ramalho, Alcymar Monteiro e Joquinha Gonzaga estão endossando uma campanha chamada "Devolva meu São João", que critica o protagonismo cada vez maior de cantores sertanejos nas festas juninas, em vez das tradicionais apresentações de grupos e cantores de forró. Sobre isso, Ceará guarda consigo as lembranças das festas tradicionais, mas considera que toda forma de manifestação é válida. "Quando eu vivia lá, não tinha o sertanejo, o que se houvia mesmo era Teixeirinha e Luis Gonzaga. Mas eu não sou a favor de protestos contra o sertanejo não. Hoje a invasão sertaneja é uma realidade. Caiu no gosto da juventude e recebe muita atenção da grande mídia, o que faz muita diferença. Acho que tem espaço pra todo mundo e essa é uma forma de abarcar ainda mais gente nos festejos". É essa também a opinião da professora e pesquisadora Raimunda de Brito Batista. "As festas em shoppings, aquelas com músicas sertanejas e, até mesmo as realizadas em escolas são, para mim, uma completa descaracterização das festas tradicionais. Entretanto, como até mesmo as tradições se criam e recriam, o resultado é uma vitamina cultural. É um processo natural do movimento das culturas, mas, infelizmente, resulta na perda de elementos interessantes", reflete.

Apoio para resistir

Em 2017, o Ministério do Turismo identificou, em seu Calendário Nacional de Eventos, 96 festejos em 87 cidades de 21 estados brasileiros em quase todas as regiões do país. O Sudeste aparece com 10 festas; Centro-oeste, com 6; Norte, com 40; e Nordeste, com 37 festejos. O que chama a atenção é a ausência da região Sul neste mapa da cultura junina. Segundo Raimunda, a região Sul, com uma massa maior de imigrantes europeus, não se esforça tanto em manter ou conhecer a tradição que segue firme no Norte e Nordeste – estados que continuam cultivando as tradições dos festejos vindo de Portugal. "A igreja católica sempre esteve presente nas festas populares juninas celebrando os santos do mês Santo Antonio, São João e São Pedro, embora inicialmente a festa tenha origem pagã. O hábito de realizar as conhecidas quermesses só foi incorporado muito depois". Ela diz, que além da falta de esforço da própria sociedade, o poder público tem grande parcela de culpa nessa perda cultural. "O poder da cultura de massa tem longos braços pra não dizer tentáculos. Acho que, se houvesse um esforço conjunto do poder público e das famílias, poderíamos ter esperanças em um resgate interessante".

Ceará, após organizar a Semana Nordestina com extrema dificuldade por 17 anos consecutivos, concorda que o poder público é grande vilão nas tentativas de manutenção dessa cultura. "Funcionou por 17 anos. Na 18ª perdemos o apoio do poder público e, infelizmente não deu pra continuar. A questão é que quando falta dinheiro, o poder público corta o que julga mais supérfluo. Acontece que cultura não é supérfluo. Conhecimento e identidade são duas coisas de extrema importância para o ser humano. É o tipo de coisa que merece ser preservada, resgatada", finaliza Ceará.

O momento se mostra bastante oportuno para refletirmos: o Brasil é um país muito rico em termos culturais, mas é de fundamental importância conhecê-los, para poder compor a identidade de nosso povo. É através das manifestações artísticas e culturais, principalmente as de origem folclóricas, que moram as raízes do povo brasileiro. Preservando esses costumes, é possível possibilitar o contato das futuras gerações com a história de seus antepassados. Desse modo, esse problema enfrentado atualmente se torna uma questão de extrema importância, não só no ramo da história, mas também da cidadania.

mockup