Em "Carta ao Pai", Franz Kafka faz um ajuste de contas em relação à figura paterna
Em "Carta ao Pai", Franz Kafka faz um ajuste de contas em relação à figura paterna | Foto: Imagens: Reprodução



A comemoração dos dias dos pais sempre está baseada em presentes, festas, beijos e abraços. Mas as relações entre pais e filhos nem sempre podem ser descritas como um lindo paraíso idílico.
Um dos exemplos de que nem sempre essa relação habita o paraíso está em "Carta ao Pai", obra do escritor tcheco Franz Kafka (1883 – 1924). Kafka escreveu o texto aos 36 anos de idade, em novembro de 1919. Dirigida ao pai Hermann, sua intenção era fazer um ajuste as contas e lavar toda a roupa suja entre um filho oprimido e um pai opressor. Entre um filho vulnerável e um pai tirano.
Segundo a lenda, Kafka teria enviado a longa carta ao pai, mas ela teria sido interceptada pela mãe. Ao ler, a mãe devolveu-a ao filho com as seguintes palavras: "Você não pode falar isso para o seu pai".

Após Kafka morrer aos 40 anos de idade, em 1924, a carta passou a fazer parte do espólio do escritor. Foi publicada, com muita hesitação pela privacidade de seu conteúdo, apenas em 1950. "Carta ao Pai" trata-se de uma obra que não criada com objetivos literários, pelo contrário, foi escrita como texto íntimo, confessional e completamente privado.
Apesar de não ter sido criada como obra literária, o texto se tornou um clássico da literatura universal e instrumento de uma série de análises e explicações para a literatura de Franz Kafka, um dos maiores escritores do século 20.
Existem duas traduções da obra realizadas diretamente do alemão. A primeira, realizada por Modesto Carone, publicada originalmente pela editora Brasiliense e posteriormente pela Companhia das Letras. A segunda, realizada por Marcelo Backes, publicada pela editora L&PM. A principal diferença das duas é que a primeira utiliza como pessoa gramatical o "você", e a segunda utiliza o "tu".
A obra pode ser descrita como o relato de um adulto atormentado que resguarda dentro de si um garoto sensível. Há o sentimento de ódio e de vingança contra o pai, mas também há a sensação de que existe uma possibilidade, mesmo que ínfima, de reconciliação. E que todo peso que coloca sobre os ombros do pai, também é um peso que merece ser colocado sobe os próprios ombros em nome da culpa.
Logo nas primeiras páginas, Kafka deixa claro que, em toda sua infância e juventude, se sentiu esmagado pelo pai: "É fato que você nunca me bateu de verdade. Mas os gritos, o enrubescimento do seu rosto, o gesto de tirar a cinta e deixá-la pronta no espaldar da cadeira para mim eram quase piores. É como quando alguém deve ser enforcado. Se ele é realmente enforcado, então morre e tudo acaba. Mas se precisa presenciar todos os preparativos para o enforcamento e só fica sabendo do seu indulto quando o laço pende diante de seu rosto, então ele pode ter que sofrer a vida toda com isso. Além do mais, das muitas vezes em que, na sua opinião declarada, eu teria merecido uma surra, mas escapara por um triz por causa de sua clemência, se acumulava de novo um grande sentimento de culpa. De todos os lados eu desemboca na sua culpa."
Ao longo da narrativa, Kafka expõe uma sucessão de sequelas presentes em seu corpo, em sua mente e em sua alma, decorrentes do autoritarismo do pai. Entende que sua infância foi completamente anulada pela opressão e tirania paterna. E que sua vida adulta foi totalmente comprometida por um tipo de maldade especial da qual se sente eternamente refém: "Seja como for, éramos tão diferentes e nessa diferença tão perigosos um para o outro, que se alguém por acaso quisesse calcular por antecipação como eu, o filho que se desenvolvia devagar, e tu, o homem feito, se comportariam um em relação ao outro, poderia supor que tu simplesmente me esmagarias sob os pés, a ponto de não sobrar nada de mim."
"Carta ao Pai" é uma obra para pais e filhos. Sem festas ou presentes. Sem beijos ou abraços.

Serviço:
"Carta ao Pai"
Autor – Franz Kafka
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Modesto Carone
Páginas – 88
Quanto – R$ 23,40

Imagem ilustrativa da imagem A festa da maldade



"Carta ao Pai"
Autor – Franz Kafka
Editora – L&PM
Tradução – Marcelo Backes
Páginas – 112
Quanto – R$ 16,90

Imagem ilustrativa da imagem A festa da maldade



[left]Fragmentos:

Querido pai,

Tu me perguntaste recentemente por que afirmo ter medo de ti. Eu não soube, como de costume, o que te responder, em parte justamente pelo medo que tenho de ti, em parte porque existem tantos detalhes na justificativa desse medo, que eu não poderia reuni-los no ato de falar de modo mais ou menos coerente. E se procuro responder-te aqui por escrito, não deixará de ser de modo incompleto, porque também no ato de escrever o medo e suas consequências me atrapalham diante de ti e porque a grandeza do tema ultrapassa de longe minha memória e meu entendimento.

(Fragmento de "Carta ao Pai", de Franz Kafka, tradução de Marcelo Backes)


…

Querido pai,

Você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você. Como de costume, não soube responder, em parte justamente por causa do medo que tenho de você, em parte porque na motivação desse medo intervêm tantos pormenores, que mal poderia reuni-los numa fala. E se aqui tento responder por escrito, será sem dúvida de um modo muito incompleto, porque, também ao escrever, o medo e suas consequências me inibem diante de você e porque a magnitude do assunto ultrapassa de longe minha memória e meu entendimento.

(Fragmento de "Carta ao Pai", de Franz Kafka, tradução de Modesto Carone)[/left]

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