A festa curitibana do teatro brasileiro WILSON BUENO Desde quinta-feira somos a capital das artes cênicas tupiniquins com a 9ª edição do Festival de Teatro de Curitiba. Mais de 70 espetáculos passarão pelos palcos da cidade até o próximo domingo, 26, numa demonstração do vigor do teatro brasileiro – tantas vezes desprezado e amaldiçoado pelos críticos de plantão. Mas não há manifestação artística, aqui ou em qualquer lugar do mundo, que não tenha contra si, ou a seu favor, a veemência da quase sempre necessária língua afiada da crítica... E se tudo é show e delícia nesta movimentação de clowns e saltimbancos, drama e comédia, textos e luzes, cortinas e poltronas, platéia e palco, persona e personagem, o que não dizer das festas e sarabandas em que se convertia a velha Atenas, com seus brincantes festivais? Conta o poeta, em hexâmetros medidos, que por dez dias e dez noites havia ‘‘um risonho gosto de Dioniso tingindo de azul o céu da boca’’. Mais de 500 anos antes de Cristo, Aristófanes já anotava à margem da comédia antiga que o teatro existia, acima de tudo, para criticar a metafísica de Sócrates... Numa peça bastante conhecida, ‘‘As Nuvens’’, neste espaço entre lenda e realidade com que o tempo costuma esgarçar tudo e a tudo trançar numa mesma dança, Aristófanes pôs o riso a serviço da crítica mais ácida – contra os desvelos dos sofistas em ensinar a sua ‘‘pedagogia’’ caminhante e peregrina. De cidade em cidade iam os sofistas ensinando o povo a pensar. Para o grego tão genial quanto intempestivo, ensinavam, sim, os sofistas, mas ensinavam errado... Eurípedes, o autor de ‘‘Medéia’’, clássico dos clássicos da tragédia grega, console-se o leitor candidato a qualquer coisa, nem que seja a uma vaga em concurso público, concorreu 22 vezes no festival celebrado anualmente, em Atenas, em honra de Dioniso, só alcançando uma única vitória sobre seus pares, – nomes que os séculos se encarregaram de soterrar – com ‘‘As Pelíades’’, em 441 a.C. Também a peça perdeu-se na voragem do tempo mas sobrou, significativa e ironicamente, a festiva notícia desta vitória do grego de Salamina. Jean Cocteau, poeta e cineasta, dramaturgo nas horas vagas, tem um texto sublime, que li não sei onde mas lembro de memória (by heart, como dizem os ingleses...) e no qual tece tão lírica quanto minuciosa reflexão sobre este evento quase espantoso que é o ator no palco e o espectador na platéia. Um texto que fala da simultaneidade do pulsar do coração – a mesma vida presente, a mesma inserção na História, o perplexo instante entre ator e público, o meu e o vosso coração batendo em igual e idêntico espaço de tempo, tautocronamente, para lembrar, de novo, os gregos, os inventores do teatro. Samuel Beckett, provavelmente o mais importante dramaturgo deste século, ao final da vida dizia não gostar de teatro, ele que havia inscrito na modernidade momentos sublimes desta arte antiga, espelho de nossas ilusões mais caras e tanta vez de nossa mais crua desesperança. ‘‘Esperando Godot’’, uma espera que se perpetua ad infinitum, é a desnuda metáfora de nosso tempo e da contemporaneidade nossa cheia de vícios e de unhas. E é também o eterno da vida em nós feito um degredo... O dia em que conheci Nelson Rodrigues, ele me disse, com a voz já pastosa dos últimos anos – ‘‘Se quiser ser escritor, seja, ouviu? Mas não escreva teatro, ouviu? O teatro vai comer a vossa carne...’’ Blefava? Até hoje não reuni coragem para enfrentar um texto especificamente destinado ao teatro, menos pela ‘‘maldição’’ de Nelson Rodrigues naquela esquina de Santana com Irineu Marinho, na cidade do Rio, em 1968, do que pelo aflito troar do tempo a cada linha que ecoa na voz de um personagem... Fazer ‘‘envelhecer’’ uma figura dramática, por exemplo, no exíguo espaço de uma peça de teatro, só para gênios – de Aristófanes a Nelson Rodrigues, passando por Ibsen, Shakespeare e Vianninha. Até domingo que vem Curitiba é de Dioniso, o saltitante deus da festa e da tertúlia. Um brinde, pois, aos gregos, a Xenofonte e Heráclito, a Ésio de Lísia, Homero, e a Andrômeda, a esposa de Perseu...