Visivelmente cansado, Plínio Marcos retornou a Londrina no início do mês para ministrar a palestra ‘‘As necessidades culturais de um povo’’ e assistir à remontagem de ‘‘O Abajur Lilás’’, com o grupo Boca de Baco. Não foi a primeira visita à cidade. Das outras vezes em que passou por aqui, Plínio Marcos se recorda saudoso do avião que saía de São Paulo às cinco da tarde toda sexta-feira, repleto de mulheres que vinham trabalhar aqui nos finais de semana. Velhos tempos.
A metralhadora verbal, usada principalmente durante os anos de ditadura, hoje dispara com menos regularidade, faz menos alarde. O escritor deixou de vender seus livros como ambulante em Sampa, devido a problemas circulatórios nas pernas. Reclama que o público não acha seus livros nas livrarias. Ficou muito tempo sem ser editado, mais de 20 anos.
Para encontrar um texto de Plínio era preciso dar de cara com ele pelas ruas de São Paulo. Agora, a história está mudando. A Funarte vai publicar todos os textos de teatro. Com o dinheiro dos direitos, comprou um big apartamento. A vizinhança do famoso edifício Copan já reclama sua ausência. Em seu novo endereço, ele tem como vizinho o presidente Fernando Henrique Cardoso, de um lado, e o apresentador de televisão Ratinho Massa, do outro lado. Todos ilustres.
Hoje, tira o sustento principalmente das leituras de tarô e de palestras. Vive com a jornalista Vera Artaxo desde 1995. Mesmo sem dizer com todas as letras, deixa claro que ela motivou as visíveis mudanças. O dramaturgo considera esse relacionamento afetivo como ‘‘paixão terminal’’. ‘‘Fiquei mais sossegado com a Vera. Eu era muito mulherengo. Ela é ótima companheira. Não posso me queixar das mulheres na vida’’, confidencia.
Na maior parte das vezes são jovens que assistem as suas palestras. Teve uma época em que uma amiga o levava às escolas de 2º grau e aos morros. Falava sem parar em seis sessões diárias. O contato com o texto visceral de Plínio agrada tanto ao adolescente, quanto ao marginal.
Em suas viagens, ele diz se deparar com um povo perdendo cada vez mais a identidade, sem perspectiva. ‘‘Isso me entristece’’, diz ressentido. Durante a palestra ‘‘As necessidades culturais de um povo’’, Plínio esteve de mãos dadas com a ‘‘finesse’’. Mesmo quando um sujeito inconveniente tentou sabotar o evento com perguntas idiotas e comentários descabidos.
Muita gente saiu decepcionada, antes da hora. Quem esperava grandes observações sobre a sociedade brasileira atual, ou que Plínio escandalizasse os ouvintes com palavrões, ou com uma saraivada de piadas, se frustrou. Ele não vociferou barbaridades. Mas o humor é o de sempre. Até muitas de suas frases continuam as mesmas: ‘‘Berramos da geral e ninguém nos ouve’’. Talvez muita coisa não tenha mudado.
O que a platéia ouviu foi o testemunho vivo de um dramaturgo que atravessou gerações à margem do sistema e produziu sua obra ouvindo a galera da geral. Com isso, navalhou as convenções. A seguir, parte do bate-papo com Plínio Marcos, concedido à Folha.
Como explicar o paradoxo: um cara que fez até o quarto ano de grupo e é considerado um dos maiores dramaturgos contemporâneos, cuja obra é objeto de estudos em universidades?
Eu comecei a entender isso depois de perceber que existem vários tipos de cultura. A erudita, a popularesca e a popular. Minha obra tem uma confluência grande com a cultura popular. O que muitas pessoas conseguiram com estudo, eu consegui com a minha vivência.
E como é ser um autor já considerado clássico, estudado nos cursos de Linguística, de Teatro e Literatura?
Na verdade, eu é que aprendi alguma coisa com esses estudos. Eu achava que Linguística era um curso de ginástica sexual para aprender depois de velho. E não é...
Suas peças retratam a injustiça social no seu lado mais cruel. De 1958 (quando escreveu sua primeira peça) até hoje, surgiram novas fontes inspiradoras de denúncia social para o teatro?
Se os autores quisessem escrever sobre injustiça social, haveria mais fontes de inspiração. Eu costumo dizer que gostaria que minhas peças estivessem superadas, mas lamentavelmente não estão.
Por que você não assiste às montagens de suas peças? (Atualmente, estão em cartaz ‘‘O Abajur Lilás’’, em Londrina e ‘‘O Enterro do Anão do Caralho Grande’’, em São Paulo).
Primeiro, eu mando alguém da família assistir. Se não valer a pena, eu não vou. A peça ‘‘O Assassinato do Anão...’’, assisti dez vezes seguidas.
Os dramaturgos brasileiros ainda não foram descobertos no mundo. São escassas as montagens de textos de autores brasileiros no exterior. Essa onda de globalização não seria uma oportunidade da descoberta de nossos grandes escritores?
Acredito que não. A mídia é que faz acontecer. Ela transformou o Paulo Coelho, por exemplo, num acontecimento. Ele é supervendido na França.
A demanda cultural no Brasil é enorme. São Paulo, a maior cidade da América Latina, oferece teatro apenas para 200/300 mil pessoas. O que acontece?
Acredito que o público de teatro seja menor, por incrível que pareça. Eles contam quem frequenta os grandes shows de cantores também. Mesmo os artistas, estão todos interessados em bilheteria. Atualmente, os elementos instigadores são poucos.
Como as pessoas reagem a esse seu lado místico, à leitura de tarô?
O tarô é um processo de autoconhecimento. A pessoa penetra no tarô e projeta seu inconsciente, eu faço a leitura a partir daí. Muita gente me procura, inclusive artistas. Uma vez uma mulher chegou e perguntou: ‘‘vou ter filho?’’ Eu perguntei: ‘‘tem trepado?’’ Ela disse que não. Então como vai fazer? Uma velhinha, em Campinas, chegou e perguntou ‘‘como será o meu futuro?’’ Foi muito engraçado.
Em seus textos os personagens são fatalmente pessimistas. E você se bandeia para que lado, do otimismo ou pessimismo?
Sou alegre como pessoa, mas não sou otimista. (Disse depois de beber uma sprite gelada).Paulo WolfgangPlínio Marcos: ‘‘Se os autores quisessem escrever sobre injustiça social haveria mais fonte de inspiração. Gostaria que minhas peças estivessem superadas, mas lamentavelmente não estão’’Francelino França
Especial para a Folha2

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